domingo, 30 de janeiro de 2011

No calor... (2)

Sexta feira no final do dia.
Calor, muito calor...
Cadê a bendita chuva?
A única umidade que sentia eram aquelas insistentes e irritantes gotas de suor que invariavelmente escorriam pela minha testa, rosto e pescoço e se acumulavam sobre o meu colo, transformando minha linda blusa de malha de seda em alguma coisa, no mínimo, horrível.
Bem, não seria assim tão horrível se eu estivesse com uma roupa adequada para suar mesmo, malhando numa academia... Definitivamente não era o caso... E o maldito ventilador, ligado no "III" só servia para espalhar o bafo.
Finalmente seis horas. Hora de voltar para casa... Acabara o expediente e, com esperança, chegaria em casa em mais ou menos uma hora. Isso se o trânsito ajudasse, se a ponte da Cidade Universitária não estivesse absolutamente parada (mais um acidente na entrada da Rua Alvarenga). E a feliz volta para casa levou uma hora e meia. Uma hora e meia de calor, com a blusa cada vez mais ensopada, sem ventilador ou ar condicionado, com o ânimo cada vez mais perdido nas brumas do cansaço e uma sensação esquisita no estômago: fome.
Lembrei-me que não comi nada desde o café da manhã. Bem, não que degustar um crepe de salmão não fosse "comer nada". Estava delicioso, mas era apenas uma prova. Às seis e quarenta e cinco da tarde, virou provação.
E o calor...
E as gotas de suor escorrendo insistentes pelo meu corpo inteiro. A visão do meu chuveiro frio, refrescante, cada vez mais distante, como uma miragem no deserto... Deserto de carros, de pessoas correndo apressadas para também se livrar do calor, em seus chuveiros distantes.
De repente buzinas, muitas buzinas. Então, o sufocante calor do final do dia, transformou-se em perfeita tortura. Comecei a imaginar os torturados na Idade Média, onde carrascos com rostos cobertos movimentavam uma manivela que fazia rodar um espeto humano sobre uma fogueira, o suficiente para fustigar a pele do coitado, queimando-o levemente até que, exausto e quase no ponto do churrasco, revelasse finalmente sua heresia, podendo ir para o Céu plenamente perdoado por todos os seus pecados.
E ri... Ri sozinha dos desalentos desta nossa vida moderna, onde os carrascos somos nós mesmo, nos torturando inclementes, sob sol ou chuva, presos aos grilhões da multiplicação do dinheiro.
E o calor...
Passei da fase do riso. Agora estava com os olhos ardendo. Não sabia se de lágrimas ou suor. O maldito suor e o chuveiro, bendito chuveiro, ainda longe.
A tortura se prolongou por mais algum tempo, entre os "passe por cima!", "sai da frente"!, "vai to...", e outros xingamentos audíveis mesmo por cima das buzinas e do barulho dos motores, mas finalmente cheguei à minha rua. Agora faltava pouco. O telefone toca e o atendo, sem muita vontade. Chego à porta da minha abençoada e fresca casa. Do outro lado um blá-blá-blá quase incompreensível para me dizer que um cartão de crédito daquela instituição seria muuuito vantajoso para mim e minha família. Sete e vinte e cinco da noite. Cansada. Exausta. Calor... muito calor... E meu chuveiro ali, bem na minha frente e eu educada, continuo ouvindo os sussurros mal falados de uma atendente extenuada e impaciente, com certeza com tanto calor como eu, querendo a todo custo fechar sua meta de vendas comigo. Comigo!! Às sete e trinta e quatro da noite, suada, cansada, de mau humor e com fome, parei de ouvir e deixei o telefone ligado sobre a pia. Tirei minha roupa toda, não sem um grande esforço e entrei no chuveiro. Finalmente... Água fresca e fria.
É claro que o telefone estava desligado quando saí do banho. A atendente finalmente cansou de me chamar e, percebendo o barulho do chuveiro aberto, deve ter ficado morrendo de inveja... Coitada...
Então fiquei pensando no final de semana que teria pela frente, nas coisas que teria que organizar em minha casa, nas minhas "obrigações domésticas" e ai! Deu um cansaço tão grande, uma preguiça!!!
Mas tudo bem... São os "ossos do ofício" e poderia ser bem pior...
Então, o dia chegou ao fim, vou dormir o sono dos justos e sonhar com o outono e inverno, para mim a melhor época do ano (que uma certa amiga minha não me ouça, digo, não me leia, já que odeia o frio).
Amanhã será um novo dia e uma nova estória poderá ser contada.
Até lá.