quarta-feira, 13 de abril de 2011

Chuva

Uma coisa que gosto muito, mas muito mesmo, é uma boa tempestade. Não uma chuvinha qualquer, mas uma Chuva, com "c" maiúsculo, "chuva prá macho"...
Quantos tipos de chuvas se conhece?
Tem a chuva-garôa, tem a chuva-chuvisco, tem a chuva de verão, a de inverno, a chuva de granizo... Bem, com certeza a lista continua com pelo menos mais alguns tipos.
Então, estava eu voltando lá do outro lado da cidade, lá daquele lugar que para chegar preciso viajar literalmente, quando senti uma tensão estranha no ar. As pessoas no ônibus já lotado àquela altura do caminho, começaram a fechar as janelas, olhar uns para os outros, ouvi comentários preocupados do tipo "ih, justo hoje esqueci o guarda-chuva!" Estranhando, olhei para fora e tentei ver o que aquelas pessoas estavam vendo. Sim, havia mesmo uma chuvinha do tipo garôa. Nada muito sério e ainda assim todos olhavam para o céu, já com as cores da noite. Colei a bochecha na porta da saída (melhor lugar para se estacionar quando já não há lugares para sentar no ônibus) e procurei olhar para cima também, quase rindo ao me lembrar de um filme infame que não consegui assistir até o final - um tal de Guerra dos Mundos - em que caiam umas naves espaciais do céu em forma de meteoritos, e imaginei uma invasão da Terra... Sem querer minha boca se distendeu e dei um grande sorriso. Um velhinho de barba branca que estava ao meu lado logo espichou os olhos para ver do que eu estava rindo e comentou: "É... Lá vem água..." E quase na mesma hora ela veio mesmo. Uma chuva-tempestade (mais um tipo) daquelas com direito a enxurrada para arrastar o que encontrasse pela frente, com raios riscando o céu inteiro e trovões para levantar os defuntos do Cemitério da Consolação (Ai! Deus me livre) por onde estávamos passando. Entendi a aflição de todos. Ainda bem que eu estava com o meu amigo inseparável: meu enorme guarda-chuva. Ao menos não me molharei muito quando descer, pensei.
O trajeto foi relativamente curto, já que o simpático velhinho ao meu lado se pôs a falar sem parar do trânsito, dos buracos do corredor dos ônibus, do preço das passagens, do Prefeito, Governador... Nossa! Até da Presidente (assim mesmo, porque me recuso a chama-la "Presidenta" - forma detestável). Quando dei por mim o ponto para descer já era o próximo. Dei o sinal, o motorista parou e abriu a porta - aquela em que eu estava estacionada. Olhei para baixo, já com o meu guarda chuva preparado para abrir e... Onde estava o chão? O que fizeram a ele? O que vi foi um rio de corredeira. Uma mulher ao meu lado gritou "Não desça moça!" Mas eu desci. Os dois pés metidos até a canela na água e eu só pensava: ai minha bota de couro... Será que nesta água tem xixi de rato? Que nojo! Mas isso nem foi o pior... Estava num ponto de ônibus... Me recompus e comecei a andar. Dei uns difíceis vinte passos e o vi chegando. Estava perto demais da calçada e com as não sei quantas rodas bem dentro da "corredeira". A cortina de água se formando e eu olhando para os lados para ver onde me esconderia do nojento banho iminente. Nenhum lugar. Abaixei o guarda chuva e me protegi do jeito que deu. Foi a sorte. Fiquei ensopada só com a água da chuva que caia. Pelo alto e não pelos lados. Motorista besta... Prá mim é sempre de propósito que eles andam daquele jeito. Só para nos molhar, pobres pedestres. Aposto que dão risada e ainda comentam com o cobrador, naquela língua esquisita que só eles entendem, o quanto foi engraçado nos molhar.
Finalmente cheguei em casa, pingando dos pés a cabeça, minhas botas pesadas cheias da água que se meteu pelo "fecho-eclair" - assim mesmo, que foi como aprendi... Já sei, aqui em São Paulo é zíper.
E, como sempre acredito que as coisas acabam bem, depois de um banho bem quentinho, tomei uma sopinha gostosa que minha irmã tinha feito. Coisas de irmãzinha mesmo. Que bom.
Fui dormir pensando na chuva do dia seguinte. Mas isso só vou saber no dia seguinte. Hora de sonhar, de preferência com um lindo sol.