segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Trem

Sabe aquela música, "O Trem das Onze"? Linda, sentida... "Não posso ficar nem mais um minuto com você..." Todo dia pego um certo trem. Um trem pitoresco pelo caminho que faz ao me deixar no extremo da Zona Leste (ou Lost, o apelido), passando por lugares que eu nem imaginava que pudessem ser do jeito que são. Também posso dizer que "não posso ficar nem um minuto a mais com você, senão perco o trem", o último antes de estourar meu horário de trabalho. Para chegar, preciso respirar fundo e encarar um ônibus (lotado, que nem sempre para no ponto), um metrô (lotado - sempre para no ponto) e o trem, bendito trem das sete e quarenta e cinco. Anda pelos trilhos fazendo aquele barulho inesquecível, balançando de um lado para o outro, como uma mãe ninando seu neném. Ai... Dá uma vontade de dormir. Então me lembro das pessoas, outros passageiros, sonolentos, babando ou roncando e me pego pensando: será que se dormir também roncarei? Babarei? Então mantenho-me com olhos bem abertos, olhando a paisagem mover-se monótona, sentindo o sol da manhã refletir poças dágua ou os vidros das janelas das pequenas casas ao longo dos trilhos nos meus olhos hipnotizados. Cinquenta minutos... Longos cinquenta minutos balançando sobre os trilhos.
Enfim chego ao meu destino, uma pracinha simpática cheia de vendedores ambulantes anunciando seus produtos, em geral um apetitoso café da manhã cheio de bolos e pães com recheios de todas as espécies para todos os gostos e café forte e bem doce, que tomei apenas no primeiro dia de trabalho, para sentir o gosto do café. É claro, também comi um pedaço de bolo de fubá... Maravilhoso! Prometi a mim mesma jamais voltar a parar em frente àquela banca... Não vou "rolar" ladeira abaixo de tão gorda não... Ah não! Basta ver os inúmeros e gordos cães preguiçando ao sol morno da manhã, todos muito bem alimentados com todas as sobras. Ah! Não posso esquecer das pombas, sempre a espera das migalhas jogadas no chão por bondade ou por descuido. O que importa... Ao fundo, música sertaneja. Aliás, uma confusa mistura de músicas sertanejas, em alto volume, afinal é hora de acordar, hora de sair de casa, limpar as calçadas, comprar a carne do almoço, o leite das crianças...
Subo a rua. Uma boa subida, mas não me importo. Afinal exercícios matinais não fazem mal a ninguém. No caminho, caras conhecidas, a mesma senhora lavando o quintal com sua mangueira furada, espirrando água para todos os lados e molhando o desavisado pedestre. O olhar de sensura não chega a intimidar a descuidada senhora, que apenas murmura um "sculpa" e continua fazendo seu serviço. Mais acima, uma escola, um posto de saúde... Sempre lotado, como convém um bom posto de saúde em qualquer lugar deste país, uma casa lotérica, bares, açougues - nunca vi uma concentração maior de açougues num mesmo lugar. Contei seis. Quitandas e mercados... E pessoas, nossa! Como tem gente andando por lá! Fico imaginando como deve ser a "subidona" no meio do dia, mas só de pensar no final dele, já me sinto quase cansada. Lembro-me que devo descer toda a rua, esbarrando nas mesmas pessoas, que então estarão um pouco mais azedas, cansadas, algumas já com seus copos na mão, para a bendita cervejinha, ou branquinha de todo o dia. Penso no trem vagaroso, cheio de pessoas que só querem uma coisa àquela hora do final do dia: chegar em casa... Exatamente como eu. E nisso, somos todos iguais. E lembro que estamos só no começo...
Ah trenzinho lerdo este...