domingo, 10 de abril de 2011

Os noventa anos da Antonia

Antonia querida!

Nós mulheres começamos a vida pequenas, querendo fazer tudo como nossas mães fazem, pelo simples fato de elas são as maiores heroínas que uma criança pode ter. Olhamos o futuro como uma coisa legal, cheia de aventuras mágicas, sonhando com um casamento feliz, uma casa bem clarinha de cortinas esvoaçantes e o barulho inefável das crianças, correndo para dentro e para fora da porta que dá para a varanda, tornando nossas vidas cheias de esperança.
Chega então a época onde temos lá uns doze, quinze anos. Somos jovens demais para saber-nos velhos e velhos demais para sermos a criança que fomos tão pouco tempo faz. Quando temos esta idade, costumamos ver as pessoas de trinta como velhos... Imaginem como vemos as pessoas mais velhas ainda? Nossa!
Então, como num piscar de olhos, chegamos aos trinta (velhas?). Estamos casadas, em nossas casas cheinhas do barulho que sonhamos e olhamos para trás com saudades da época em que podíamos entrar pela porta da varanda da casa, gritando "Mãe! estou com fome! O almoço 'tá' pronto?" Estamos cansadas, temos tantas obrigações... Hora de sonhar com épocas futuras mais tranquilas, com as crianças menos barulhentas, saindo de casa cedo para irem à faculdade ou ao trabalho, achando que ainda somos jovens demais para isso aos trinta e velhos demais para ter saudades de nossa adolescência sem responsabilidade.
Chegamos aos cinquenta. Os filhos, crescidos e independentes, nos olham cheios de condescendência, só para que tenhamos certeza de que somos velhos demais para influencia-los. Vemos aquelas crianças crescidas saírem apressadas em busca de seus futuros e olhamos nossas casas ainda com os ecos dos gritinhos alegres e agudos das crianças que criamos. As cortinas ainda balançam sob as ordens da brisa do fim do dia. O cheiro da comida ainda embriaga de lembranças e saudades. Mas agora, as crianças estão fazendo crianças...
E chegamos aos setenta...
Olhamos todos aqueles anos como se apenas um dia tivesse passado. Olhamo-nos no espelho e identificamos as rugas que o tempo nos marcou. Temos a cabeça cheia de desejos e vontades, temos sonhos e tantos mistérios ainda para desvendar... Nosso vigor físico já não é o mesmo, mas ainda podemos nos sentar para brincar com as crianças que as nossas crianças nos trazem aos finais de semana para alegrar nossos dias. Rimos e choramos com suas travessuras e já não nos importamos com a bagunça que elas fazem, gritando "Vó, olha só o que ele fez!" ou simplesmente porque estão na casa da vovó, onde tudo é permitido, porque a vovó é legal.
O futuro parece uma coisa incerta, e nos perguntamos preocupados por quanto ainda estaremos por aqui. Há ainda tantas coisas que queremos fazer e ver...
E então chegamos aos oitenta como vitoriosas. Ainda cheias de sonhos e desejos, ainda querendo desvendar os mistérios que a vida pode nos trazer. Acariciando cada ruga produzida pelo Tempo e sorrindo feliz ao ver o que o passado nos legou. A família cresce a cada ano, já temos mais uma geração de pequenos indomáveis, agora nos chamando de "bisa". Então chegamos à conclusão de que valeu cada dia vivido dos últimos oitenta anos.
Mas você Antonia, chegou aos noventa... Noventa anos!!! Tenho certeza de que ainda tem sonhos, objetivos não alcançados e vontade de viver ainda mais. Tem crianças chegando e outras deixando de serem crianças, Tem gente te chamando de mãe, outros de vó e mais outros de bisa. Quem sabe mais um pouco alguém ainda de chama de tata?
Antonia querida, que Deus continue abençoando cada aniversário que você ainda fizer, cada sorriso e cada resmungo que der, com a prerrogativa de que você pode. Pode tudo o que quiser, porque vive para merecer cada desejo realizado, cada vontade satisfeita.
Parabéns pelos seus noventa anos! Tomara que todas as pessoas que eu conheço vivam até essa idade, com a beleza irradiante que você tem, com a paciência indulgente com que trata aqueles que são jovens demais para entender o que é ter vivido tudo o que você viveu.
Muitas felicidades pelos anos que ainda estará aqui conosco, nos fazendo felizes só de saber que você ainda está aí, no seu quarto quentinho, ou sentada na cadeira da sala assistindo o nosso Santos vencer partidas impossíveis... E que ele comece a ganhar logo, antes que fique muito para trás na tabela.
Amo você Velha!