quinta-feira, 26 de maio de 2011

Mocinha

Hoje tomei um sorvete. Um sorvete de laranja, doce e azedo ao mesmo tempo, daqueles que dão uma dorzinha no fundo da bochecha. Engraçado como alguns sabores nos remetem a lembranças quase esquecidas. Lembranças que estavam bem escondidinhas, de um tempo em que eu era uma "perfeita nadadora" - nada de frente, nada de lado e nada de costas. Neste tempo, eu andava de shortinho curto, quase sempre sem camisa, com cabelos bem curtinhos (sem esquecer a franja - alguma coisa tinha que me identificar como menina). Vivia com os meninos da rua, incluindo meu irmão, subindo furtivamente nas árvores dos vizinhos, para roubar mangas doces e jacas escolhidas a dedo, assando fruta-pão no barranco do "castelinho mal assombrado" - uma propriedade meio abandonada no final da rua, e apostando corridas de carrinho de rolemã - construído com capricho por mim e pelo meu irmão. Ah, sem esquecer também das voltas de bicicleta que sempre rendiam algum tipo de quizumba memorável, como as inexplicáveis brigas com a turma da rua de baixo, inimiga histórica da rua de cima - a minha.
Naquele tempo, tomar o bonde, descer para a Cinelândia pelos Arcos da Lapa e tomar o ônibus para ir à praia sem contar nada para as nossas mães era, inegavelmente a aventura mais emocionante que fazíamos, já que poderia render umas boas surras e um enorme castigo. Amava o cheiro doce do vento que vinha do mar, que desarrumava os cabelos das pessoas sentadas nos bancos do bonde enquanto nos apertávamos nas pontas sem portas, para enxergar as casas pequenininhas que ficavam por trás do Teatro Cecília Meirelles.  Absurdamente só contamos à nossa mãe quando já éramos adultos e quando o fato só fez provocar um olhar de censura e um sorriso sem graça. Também era tempo de tomar sorvetes. De laranja com recheio de creme, lançamento famoso da época. Nem sempre inteiros, já que os tomávamos como pagamento por limpar o chão da padaria do "seu" Alberto e isso só aos sábados. Claro, sempre os que estavam no fundo da geladeira. Mas não importava... Era sempre uma festa, como era também festa o lanche que tomávamos nas noites de sábado: sanduíches de "arroizbife" (traduzindo: rosbife) que meu pai mandava comprar na mesma padaria dos sorvetes, e refrigerante (em geral Grapette de uva).
O tempo passou, os cabelos cresceram e as aventuras mudaram de lugar, de cidade. Deixamos o Rio de Janeiro e viemos para São Paulo, onde conquistei meu lugar do qual nunca mais abri mão nesta cidade linda, com suas particularidades tão únicas, de céu estranhamente azul escuro no inverno frio e árvores de flores amarelas ou azuis, repleta de cinemas, parques, e amigos dispostos a andar quilômetros de bicicleta. Já não tínhamos mais o bonde para nos levar clandestinamente à praia, mas tínhamos o parque do Ibirapuera e a pista de patinação no gelo ao lado do Aeroporto de Congonhas. Deixei de ser a "perfeita nadadora" que fui e passei a usar vestidos e blusas com sutiã, embora os odiasse mais do que a qualquer coisa - negócio apertado e desconfortável. Até sandálias e sapatos com salto, pois eram mais femininos... Ao invés de frutas roubadas, livros na Biblioteca Mário de Andrade. Ao invés de corridas de carrinho de rolemã e bicicleta, cinema.
Mas nunca deixei de ter saudades dos meus amigos de quizumba, do gosto doce e azedo dos sorvetes de laranja do "seu" Alberto e do cheiro das frutas frescas colhidas na hora. E nunca me esqueci do primeiro beijo na boca que levei na vida, fruto de uma brincadeira de "pera-uva-maçã-e-salada-mista" e da sensação de calor que aquilo me despertou, apesar do "nojo" da língua molhada do garoto. Acho que foi ali, naquele momento, que comecei a me transformar numa "mocinha".