terça-feira, 24 de maio de 2011

Saudades

Há tempos venho me lembrando de coisas pelas quais passei quando era bem... Digamos... Mais magrinha, com cabelos mais compridinhos e bem menos idade. Eram tempos muito divertidos aqueles, quando as poucas preocupações que eu tinha na vida se resumiam a tirar boas notas na escola (e eu era uma razoável boa aluna), ouvir com amigos os discos novos do Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer e, claro, Queen e "trabalhar" nos finais de semana em Interlagos junto com meu primomelhoramigo como bandeirinha de corridas de carro.
Em Interlagos aprendi muitas coisas. Aprendi a gostar do cheiro da fumaça de gasolina azul que escapava dos carros totalmente "envenenados" que andavam a mais de duzentos por hora nas curvas do autódromo; aprendi também que nunca devemos andar em carros caindo aos pedaços e sem porta... O carro de nosso "chefe" que circulava pela pista nos "distribuindo" pelos pontos de controle; e aprendi a fazer xixi atrás da moita... Banheiro só nos boxes e assim mesmo só antes ou depois das corridas.
Puxa, eram dias lindos aqueles. Só alegria e diversão, mesmo quando chovia cântaros. Ainda me lembro da Curva da Ferradura, onde os carros vinham tão perto do guard-rail que quase podia tocá-los não fosse o meu primoprotetorprácaramba me puxar para trás me chamando de maluca, e da Curva do Lago onde, nos poucos momentos de calma do autódromo, ouvíamos os cri-cris dos grilos e os coachares dos sapos, sem esquecer dos vôos rasantes dos mosquitos e borrachudos que nos atacavam numa perfeita sincronia, como se tivessem ensaiado uma coreografia bizarra.
Comíamos deliciosos sanduíches de queijo com presunto (sim, naquela época ainda achava uma delícia comer carne...ui!) e tomávamos Coca-Cola quente - cortesia dos organizadores das corridas. Éramos tão felizes... Os finais dos dias nos encontravam sempre encostados nas muretas dos boxes ouvindo bobagens e discussões acaloradas entre os pilotos perdedores, esperando a carona do carrocaindoaospedaços do chefe.
Mas, para mim, a fase de trabalhadora nas pistas acabou com uma chuva de granizo memorável, daquelas que tiram lascas de asfalto e arrancam a paciência de qualquer um que tenha que se abrigar por baixo de uma placa daquelas de propaganda de autódromo ficando surdos com o barulho das pedras e rezando para algum santo mostrar uma bandeira preta para acabar com a tensão. Tive uma febre horrorosa e dela fui direto para a mesa de cirurgia para tirar uma coisinha bem chata e dolorida conhecida pelo nome de Apêndice. É claro que os meus pais me proibiram de acompanhar o meu primomaisquedecepcionadoesozinho para manejar bandeirinhas coloridas dando ordens aos pilotos que eram obrigados a obedecer, mesmo quando as "ordens" às vezes nem eram tão sérias assim.
Depois disso, não me restou mais nada a não ser me lembrar dos cheiros de borracha e fumaça, da confusão mais que organizada dos boxes e da visão mais que privilegiada de uma corrida de Fórmula 1 da torre de comando de Interlagos, único lugar em que bandeirinhas do sexo feminino podiam ficar naquele tempo. Só faltaram os autógrafos do Pacce e do Fittipaldi que passaram tão perto de mim que pude sentir o cheiro de suor dos seus macacões.
Sim, tenho saudades... Mas também tenho saudades da rua Augusta no tempo dos Fuscas conversíveis e de ir no cinema no Cine Belas Artes - bem, isso nem faz tanto tempo assim.
Sinto saudades dos tempos tranquilos em que só pensava em coisas simples como a roupa que usaria para ir à escola ou à casa dos meus amigos ouvir música e jogar conversa fora. E sinto muitas saudades das horas de conversas cultas com o meu primosupererudito. 
Quem sabe do que sentirei saudades daqui a algum tempo. Mas isso, certamente é outra estória, que espero seja bem mais empolgante.