quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um dia diferente...

Pois é... Nestas alturas do campeonato, o Santos está na semi-final da Libertadores, o Japão caiu um "absurdo" um por cento do PIB, a gripe está derrubando todo mundo e finalmente o frio chegou. O friozinho gelado que dá vontade de ficar na cama quentinha até mais tarde, que deixa o céu com cor de anil e faz as pessoas quererem ficar mais elegantes, mesmo cheias de roupas.
Acordei hoje com vontade de de ter um dia diferente, de ser uma pessoa diferente... Mas acordei como todos os dias: abri os olhos, um rápido beijo de bom dia no maridão ao lado, café da manhã na mesa, banho quente, roupa quente, sapato quente e... Rua fria. Fiquei pensando em abraços apertados e beijos calientes e deu até um arrepio. Sorri para uma velhinha que passava devagar por mim, carregando a sacola da padaria e me falando um gripado "b'dia". E lá estava eu chegando ao meu trabalho, como o faço todos os dias. Mas hoje, queria uma coisa diferente. Olhares diferentes, palavras diferentes...
Imaginei um cenário bucólico, cheio de flores cheirosas e cadeiras confortáveis estrategicamente colocadas a me chamar para um momento de reflexão absoluta... Adorei a imagem. Olhei para os lados e, ao invés do cenário lindo, a banca de jornais sobre o bueiro fedorento da rua onde trabalho. Não que o lugar seja feio. Há jardins espalhados por todos os lados e obras recém começadas, lançando poeira e barulho por todos os lados. Há pessoas bonitas e bem vestidas e aqui e ali o sotaque inconfundível de quem veio do Nordeste. Trabalhadores incansáveis e sempre bem humorados que, dia-a-dia transformam a cara desta cidade.
E eu ainda queria um dia diferente... Coisas diferentes...
Enquanto esperava o elevador, continuei dando tratos à minha imaginação. Olhei meus pés quentes e apertados dentro de meus sapatos e imaginei estar calçando as confortáveis e fofas pantufas com cara de ursinho que estão guardadas na minha sapateira. Não deu outra... Tive que rir. A porta do elevador se abriu e o casal que desembarcou olhou-me espantado, procurando a pessoa que poderia estar comigo e teria me feito rir daquele jeito. Fiz cara de paisagem, murmurei um rápido bom dia e entrei no elevador antes que o constrangimento ficasse insuportável. No grande espelho do elevador limpei uma pequena mancha borrada de minha maquilagem e decidi que o próximo delineador que eu comprar será a prova d'água. Comprovadamente à prova d'água.
Então, o dia foi passando, suas horas inexoráveis e apressadas em busca do final do sol e do calorzinho que ele nos dá. A noite caiu rápida e já era hora de voltar para casa. O vento inclemente do outono cortava a pele. Mas, corajosa enfrentei. Afinal, estava frio. O que, por si só, já estava deixando o dia diferente. Aromas misturados chegavam a mim, suscitando uma gama de memórias que nem sei de onde vieram. Lembrei dos meus avós e da comidinha de vovó que comia na singela casinha tão germânica onde moravam. Lembrei dos ponchos peludos que usávamos para ir à escola, tiritando de frio e maldizendo a idéia do meu pai que nos trouxe para esta cidade. Lembrei das noites frias que passamos no sítio, quando nos enrolávamos em cobertores em volta de fogueiras, assando bananas e milho e tomando vinho quente. E estava chegando em casa... Luzes ainda apagadas, pois eu era a primeira a chegar, mas ainda assim quentinha, acolhedora.
Cheguei a conclusão que o "dia diferente" fazemos sem nos dar conta, que podemos ser diferentes apenas sendo nós mesmos e que só podemos esperar dos outros aquilo que eles podem nos dar. Cheguei à conclusão também, que na minha cabeça, na minha imaginação, posso tudo. Crio meu dia diferente como eu quero... Um dia num belo jardim, no outro numa linda sala e num outro dia, num outro país, cercada de pessoas singulares e amáveis e ouvindo curiosas músicas. Ri de novo e pensei: o que será que vou inventar amanhã?