terça-feira, 7 de junho de 2011

Azeitonas


Hoje estava aproveitando uma folga inesperada e a usei para ver algumas fotos nem tão antigas assim, mas que me remeteram a uma etapa de minha vida que foi crucial, sob todos os aspectos.
Enquanto as olhava, me lembrava dos passeios que fiz e das coisas que vi, pequenos detalhes pitorescos de um país tão diferente e, ao mesmo tempo, tão parecido com o nosso: Itália.
Revivi, nas minhas memórias, a impressão que tive logo na chegada, com um calor insuportável, passando em muito dos quarenta graus, enquanto estava às voltas com roupas do inverno paulista. Meus cabelos ficaram ensopados de suor e o cansaço das longas horas sentada numa poltrona apertadinha e desconfortável, como só os aviões da Alitália podem ter, me deixaram bastante mau humorada, sem contar com a diferença do fuso horário. Era como se eu tivesse deixado passar quatro horas da minha vida. 
Isso já faz dois anos, mas parece que foi ainda ontem... 
Mal consigo lembrar o caminho que fizemos do Aeroporto de Fiumicino até Fidene, bairro um tanto afastado onde moraríamos enquanto estivéssemos em Roma. O sol inclemente refletia estranhas imagens nos meus olhos cobertos de sono. Mas, o cansaço foi embora depois de umas dez horas de sono e, quando acordei, dei de cara com uma espécie de espantalho no espelho. Os cabelos revoltados (e não revoltos) quase me desanimaram. Olhei para eles e eles olharam para mim, com aquela empáfia típica de quem pensa estar por cima, decidi: adeus cabelos! Peguei uma velha máquina de cortar cabelos, ajustei o pente número cinco e... voilà! Mais do que preparada para o verão mais quente e ensolarado da minha vida.
Conheci as praias cercadas e servidas por garçons atenciosos, que montam-nos cadeiras e guardas-sóis enormes e coloridos. Bem, cada trecho cercado tem uma cor que o distingue dos outros. Tive o prazer de submergir nas águas quentes do Mediterrâneo, pulando das pedras que formam as encostas da região, que os italianos chamam de "scoglio". Circeu - quem pensou na Maga Circe do Ulisses, acertou - é uma região lindíssima. Lá está o quarto lugar mais quente da Itália, chamado de "Quarto Caldo". Como em tantas outras cidades da Itália, o castelo abriga uma bela cidadela, cheia de lojinhas e cafés simpáticos, além de sacadas repletas de flores de todas as cores, que me deixaram embasbacada. Nas praias, longas faixas de areia grossa e escura, que às vezes chega a machucar os pés, vêem-se casas das mais variadas formas e cores, com os mais variados estilos de construção. E torres, muitas torres romanas de observação, já em ruínas, mas lindas. Algumas abertas à visitação pública, outras fechadas e cheias de seguranças falhas, como a Torre Paula, numa praia chamada Sabaudia, cujas entradas são facilmente violáveis. Do alto desta torre têm-se uma visão deslumbrante de toda a região. E ela fica aos pés do Monte Circe, cujo relevo faz lembrar o perfil de uma velha bruxa deitada.
Então, indo mais para o sul, em direção à Nápoli e bem perto de Circeu, há uma construção clássica greco-romana, um templo grego em terras romanas, que foi uma das maiores obras daquele povo fora de seu solo. Deve ter sido lindo quando estava em pleno funcionamento. Fica no alto de uma montanha e também de lá se pode ver o Mar Mediterrâneo e boa parte da região. Andar por ali nos remete às mais diferentes sensações. É como, se de repente, nos transportássemos para uma época remota, onde os homens trajavam aqueles curtos vestido e sandálias e portavam espadas, e as mulheres cobriam totalmente seus corpos com tecidos finos e vaporosos, enquanto seus cabelos eram trançados engenhosamente no alto de suas cabeças. Há oliveiras seculares em todos os cantos, deixando no ar um perfume ora acre, ora adocicado das azeitonas. Num dos extremos do templo há uma velha oliveira torta e cheia de nós, quase deitada ao solo, que dizem ter mais de mil anos... E quando se olha para o sul, Pode-se vislumbrar dezenas de cavernas nas encostas. Algumas bem grandes.
E o mar... Bem mais salgado que o nosso Atlântico é de um azul escuro, quase violeta. 
Mas, sem dúvida, o que mais me impressionou, foi o cheiro do ar... Uma mistura perfeita de flores de verão, com o sal do mar, com o aroma de olivas em diversos estágios de amadurecimento e comida. Sim, uma comida colorida, saborosa, gentilmente regada com muito azeite, cozida "al dente", ou mal cozida, quase crua, em geral acompanhada por um pão delicioso, cujo fermento usado tem, no mínimo, dezenas de anos, quando não têm centenas, já que é uma tradição passar o fermento de geração a geração.
Poderia ficar por horas descrevendo as mais belas paisagens italianas, mas agora preciso sair correndo... Estou atrasada. Mais estórias ficam para uma próxima vez.