quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Cura

Ontem eu fiquei sentada por quase uma hora numa cadeira em frente ao guichê de passagens na Rodoviária do Jabaquara. Tive tempo bastante para observar algumas coisas... Gostei de ver o capricho dos auxiliares de limpeza, cuja sede de juntar papeizinhos teimosos e até pontas de cigarros distraídas do chão era insaciável. O piso da rodoviária é de causar inveja a muitas donas de casa. Não obstante toda esta contemplação, de repente, um casal nem tão jovem assim, mas com uma pequena criança de mãos dadas com eles, aguardavam sua vez para comprar passagens. A mãe atenta e cuidadosa abria a embalagem de alguma guloseima – que não pude identificar – para dar à filha. Até aí, apenas uma cena comum de uma família comum, não fosse o destino dado aos pequenos pedaços da embalagem aberta, que ela ia deixando cair no chão imaculadamente limpo. Claro que não resisti... Levantei-me, muni-me do mais lindo e simpático sorriso e me dirigi ao casal. Disse-lhes um “bom dia” entusiasmado e comuniquei-lhes que haviam, naturalmente sem querer, deixado cair pedaços da embalagem no chão. Qual não foi minha surpresa quando, sem nenhuma cerimônia, a mãe olha-me com cara de poucos amigos e me diz que não deixou cair não... Jogou mesmo. Mostrei-lhe a lata do lixo, logo em frente e já ia ensaiando algum tipo de discurso de cidadania e civilidade, quando reparei na cara de paisagem sem graça do pai. Desisti do discurso, mas falei com a cara mais ofendida do mundo: “bem, a senhora pode ‘jogar’ seu lixo no chão de sua sala, mas aqui é um lugar público e as pessoas não são obrigadas a compartilhar lixo com ninguém.” Como se adiantasse alguma coisa... Os três saíram andando como se eu fosse apenas um inseto chato deixado para trás e nem se deram ao trabalho de me responder. Juntei o resto de minha dignidade e tratei de catar, eu mesma, o lixo do chão.
Voltei ao meu lugar quase triste, quase abatida. Pensei em todas as campanhas publicitárias e no dinheiro gasto com elas, para explicar à população a importância de destinar o lixo corretamente, das conseqüências que o lixo jogado nas ruas podem causar, principalmente nas épocas de chuva, sem falar da proliferação astronômica de roedores e insetos altamente nocivos à saúde.  Então, pensando em saúde, lembrei-me das epidemias que já assolaram o mundo nas diversas épocas da história, inclusive a que vivemos agora. Foram ou são doenças realmente sérias, graves, cujas conseqüências não raro é a morte. Mas há uma epidemia muito mais grave e de conseqüência nefasta, muito pior do que qualquer outra: falta de educação, associada à falta de respeito, com pitadas de falta de cultura e interesse. Isso sim é a pior coisa.
Investimento em cultura e educação, por si só, já promove certa cura deste mal, cura que proporcionará qualidade de vida e longevidade cada vez maiores. E acho que nem adianta fazerem propagandas na televisão ou rádio, porque as pessoas teriam que começar a ser educadas no berço. Para isso, investimento em educação escolar é básico. Por experiência, sei que crianças incentivam e até mesmo educam os mais velhos. Estes, intimidados, acabam absorvendo costumes novos e, consequentemente, podem servir de exemplos para os outros.
 
Assim se curam doenças.