domingo, 5 de junho de 2011

Para Marco


O cheiro do café fresco, recém passado, invadiu covardemente as narinas ainda sonolentas e preguiçosas de quem ainda insistia em permanecer na cama. O sol entrava apressado pelas frestas da veneziana, produzindo estranhas formas pelo chão e cama, por onde passava.
Lentamente a consciência tomava conta definitivamente do meu corpo amolecido pela noite longa e fria. De repente o despertador dispara seu apito estridente e agudo, como para acordar um próprio defunto. Dei um pulo assustada e levantei-me, por pouco não atirando o pobre celular na parede. Notei que você não estava ao meu lado na cama... Abri então o par de venezianas e, junto com o sol, admirei a magnífica florescência das bouganvilles, tingidas de vermelhos e alaranjados, numa mescla de indescritível beleza. Os pardais, esquecidos do frio, gritavam em festiva revoada, atrás de comer os coquinhos teimosos e temporões das palmeiras em frente à minha janela. O frio era tanto que meu nariz gelou e ficou vermelho. E o cheiro do café que alguém acabava de passar invadiu definitivamente o meu cérebro. Obriguei-me a calçar, preguiçosa, o "croc" vermelho que andava usando no lugar do velho chinelo Havaiana, vesti o surrado e quente casaco de lã e desci lentamente as escadas. 
No caminho sorri lembrando-me de você e de todas as coisas que passamos nestes últimos anos, quase tantos como os de uma vida inteira. Quantas vezes, com frio ou calor, levantei-me rápido para buscá-lo nas madrugadas, dormindo no sofá da sala em frente à televisão. Reclamava então de sua ausência e você, às vezes resmungando, levantava condescendente para me acompanhar e deitava-se abraçando-me forte e com carinho, enquanto eu enroscava as pernas nas suas. Lembrei-me de quantas vezes você preparou o nosso café da manhã, sempre caprichando, como se fosse uma pequena festa matinal. E eu ficava observando-o fazer tudo, cheia de preguiça, esperando você me chamar quase impaciente.
Lembrei-me também de todas as vezes que você me trouxe aquelas singelas flores cheirosas, às vezes arrancadas de árvores no caminho de casa, às vezes compradas, mas sempre carregadas com uma emoção quase palpável.
Quantas vezes brigamos aos gritos, lançando-nos palavras duras e injustas, ficando por dias ressabiados um com o outro para depois, aos pouquinhos, bem devagarzinho, como que desafiando uma paciência que estamos longe de ter, fazemos as pazes, entre beijos e olhares de censura. 
Lembro-me de quantos e quantos jogos de rugby assisti, sob sol ou chuva, calor de matar ou frio de cortar, nas longas tardes regadas à cerveja e muitos gritos aflitos como torcedora, ouvindo orgulhosa todos os comentários sobre como você é bom. Quantas vezes ouvi jogadores ou torcedores de outros times dizendo que adorariam tê-lo como jogador em seus próprios times. Sem contar com os momentos de pura agonia quando o via por baixo de uma multidão de pesos pesados, esperando que você saísse ileso de lá. Quase sempre respirei aliviada por vê-lo sair andando, naquele seu jeito tão especial de andar que nem preciso falar... Engoli em seco lágrimas de medo quando você quebrou as clavículas, machucou o joelho e o ombro e quando o vi com o rosto coberto de sangue, quando abriu o supercílio. Tinha vontade de matar o rinoceronte que o teria atropelado no campo. Mas, compreendia que eram coisas de jogo e que, no terceiro tempo, todos se beijavam e abraçavam como deve ser... Assim se ganham os jogos. 
Olho para você dormindo e me lembro de quantas e quantas vezes observei, inundada de amor, você dormir com nossos dois bebês, hoje homens. Esse foi o maior presente que você me deu na vida, os nossos dois lindos filhos. Homens que são, hoje nos ensinam o que, por tanto tempo, ensinamos a eles.
É seu aniversário. E parece que você continua o mesmo menino que conheci, cheio de energia e marra. Continua o mesmo homem bonito, meu cheiroso, que tanto bem me faz. Gosto de suas brincadeiras e esqueço fácil de suas broncas. Porque sei que são broncas de alguém que tem a mania de achar que sempre sabe mais que qualquer outro. Típico de você...
Desejo que seja feliz. Tão feliz como me faz na maior parte do tempo, não obstante tudo pelo qual já passamos, pelo simples fato de ser vida, porque a vida é assim mesmo: nem sempre linda, nem sempre fácil. 
Quero dormir muito ainda enroscada em você, encostada no seu corpo quente e cutucando seu braço para que você pare de roncar. E quero acordar com o cheiro do café fresquinho que você prepara como uma pequena festa matinal. 
Amo você há muito tempo e por muito tempo ainda...