quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sofá com abraço

De repente acordei. Nem eram ainda seis horas e o sol preguiçoso, não tinha dado as caras... Alguma coisa me incomodava e não eram os sons normais tão familiares e bem vindos. Prestei atenção e entendi o que era: miado de gato. Ainda que parecesse choro humano, era distinguivelmente um miado de gato, daqueles para tirar qualquer um do sério e que dá vontade de jogar um balde de água bem gelada em cima. Imaginei a cena: o gato levando aquele banho gelado, molhando todo seu pelo e deixando seu corpo fininho, com os bigodes caídos. Então ele dá aquela sacudida tremida, espalhando a água por todos os lados... Para continuar sua sinfonia sedutora, em busca da amada disponível. Finalmente a encontra. Toma alguns arranhões e dá algumas mordidas e, enfim o amor... Ato que dura apenas trinta segundos... Trintas absurdos segundos depois de horas de gemidos e miados insolentes.
Ainda bem que entre nós, humanos que somos, a sedução é bem diferente. Tem o olho no olho, a mão na mão, um sorriso, um abraço ou um ardente beijo, daqueles de tirar o fôlego e acender todos os fogos do corpo. Mas também tem aquela sedução, ou meia sedução - risos - na cama, cedinho. Pés que se esfregam, mãos que se buscam, sopro na orelha... Os olhos ainda fechados do sono e a boca sedenta da noite. Que importa... O calor é que conta. Mesmo quando o frio é de amargar.
Tive uma amiga que jamais, em hipótese alguma, fazia amor com o marido de manhã. Dizia que nunca beijaria o marido antes de escovar os dentes e pentear os cabelos, entre outras coisitas a mais. Eu ria quando ela me dizia isso e pensava nas manhãs ardentes, com mau hálito e cabelos alvoroçados. Mas pensava também nas noites calmas, depois de um dia inteiro de canseiras e atividades de tirar a vontade de qualquer um. Noites em que tudo o que era importante na vida se resumia a um café com leite, um pão com manteiga e um abraço compreensivo e apertado no sofá. Depois disso... Estórias que não se contam.
Penso de novo nos humanos... Nós... Somos mesmo uma raça estranha. Reclamamos de tudo e queremos demais. Temos todas as ferramentas à mão e ainda assim nos queixamos. Amamos mais do que devemos e somos amados menos do que queremos. Ou seria o contrário?
Lembro do gato chato que me acordou com seu miado.
Ainda bem que o dia está quase no fim. Final tranquilo, calorzinho fora de hora e, mesmo assim, café com leite e sofá com abraço.