sexta-feira, 22 de julho de 2011

Catarse

Então ela estava ali, sentada no mesmo lugar já gasto do sofá velho, sentindo pena de si e pensando em tudo o que não fez e em tudo o que gostaria de fazer. Olhou para o lado e sentiu-se só, como sempre se sentiu, apesar dos tantos que haviam ao seu lado, morando na mesma casa, sentando-se juntos no mesmo sofá... velho e gasto, comendo e bebendo as mesmas coisas todos os santos dias de sua santa e longa vida. Sentia-se velha, embora não tivesse tantos anos. Sentia-se infeliz, embora todos a cobrissem de carinho. Levantou-se lentamente e andou pela casa, como se nunca a tivesse visto. Parou em frente ao grande espelho e viu-se, como se fosse a primeira vez...
Alguma coisa estava acontecendo. Um grande cansaço tomou conta de cada fibra de seu corpo. Uma tremedeira quase incontrolável, como numa volta hipotérmica. Dúvidas... Quem sou, o que fiz, o que farei? Perguntas que tomavam conta de todos os seus pensamentos, respostas sem nenhum nexo, nenhuma eloquência.
E o cansaço... Os joelhos dobraram-se e ela encontrou-se intimamente ligada ao chão. Espalhou-se por ele, acariciou-lhe detidamente, cheirando-lhe as entranhas, ouvindo os barulhos ensurdecedores do silêncio...
Uma brisa morna soprava pela fresta aberta da janela. Fazia mexer as cortinas quase transparentes e estas, teimosamente como um inseto, insistiam em beijar a cabeça dela.
Aos poucos, o calor começou a invadir-lhe o corpo. A tremedeira agora era como um espasmo, uma lembrança remota de um frio intenso. Aos poucos ela começava a retomar o controle sobre seu próprio corpo e, com isso, seus próprios pensamentos. Era como se emergisse de um rio fundo, caudaloso e frio. Aos poucos recomeçou a ouvir os sons do mundo ao invés dos sons do silêncio. Uma voz, no fundo do túnel de seu cérebro, falava palavras compreensíveis e coerentes... Retórica muda. Dizia coisas como sabedoria, bem querer, sobrevivência... Ela passou a ouvir a voz com toda a atenção. E aquela atenção virou toda a sua vida. Páginas viradas com pressa e sem ordem até que chegou à página principal daquele diário virtual: à de hoje. Em branco. Uma pergunta: o que escrever na página de hoje? Continuar a história como ontem ou começar uma nova?
Ah... Calor. Agradável sensação... Ela levantou-se de seu chão, sem dor, como há muito não o fazia. Caminhou com cuidado até seu sofá e viu o quanto estava gasto. Deu um sorriso enferrujado e começou a tirar os panos empoeirados que cobriam o velho móvel. O cheiro acre, de suor e lágrimas subiu até suas narinas como nunca antes. Com renovada vontade, empurrou o pesado sofá para fora de sua sala, de sua vida. Abriu todas as cortinas e escancarou as janelas. Viu surpresa que lá fora o sol brilhava, esquentando sem piedade as plantas ressequidas de seu jardim.
Seus músculos reclamavam a falta de exercício, mas seus olhos trabalhavam céleres. Olhavam avidamente para todos os lados, em busca do que sabiam estar quase perdido. Onde está? Porque não aparece?
Voltou a olhar-se no espelho. Viu-se pela primeira vez em muito tempo. Descobriu que podia tudo. Descobriu enfim, o que os olhos tão desesperadamente procuravam: uma saída.  Descobriu, com isso, que podia ter um futuro, que podia se bastar e podia bastar a qualquer um, que era mais importante do que qualquer outra coisa. Descobriu ainda que havia luz, muita luz onde pensou que era só escuridão. Resolveu que a felicidade não estava por aí, brincando de esconde-esconde como crianças, mas dentro dela, como um pequeno verme que, ao se reproduzir, toma conta de todo o ser.
Olhou finalmente a sua volta. Redescobriu os rostos de sua vida, o amor que ela queria e a paz que pensou perdida. E estava tudo, absolutamente tudo ao alcance de seus olhos...
Finalmente entendeu que a coisa mais importante era ela mesma. Nada na vida tinha mais sentido do que gostar de si mesma, se querer bem, se acarinhar como a uma criança. Tudo era ela e ela era tudo.
Finalmente sabia o que escrever no diário virtual de sua vida.
A história enfim seria diferente dali para frente. Uma estória sem fim...