sexta-feira, 29 de julho de 2011

Epifania

Ela então correu.
De maneira meio instável, já que suas pernas doíam e seu coração estava apertado. Os passos marcados eram sinal de um grande peso. Sentia-se como um minúsculo besugo nadando célere em busca do abrigo. As cores e formas passavam como se ela estivesse estática e não correndo. Mas corria por quê? Da vida que tinha ou para a que queria ter?
Era como a própria pacóvia, em busca do fenecimento que nunca chegava. De soslaio olhou para o lado. Viu seu rosto e olhou seu corpo... Um verdadeiro dândi. Olhou a si mesma e percebeu o quanto estava dilapidada. Encarou-o de frente e então percebeu, sem muito esforço, o plissado de seus anos. Não era apenas ela a exibir o sorriso de Monalisa... A cara de paisagem já não enganava mais... Estava ali, alerta e concentrada, a espera do iminente. Disse ao seu coração e ao seu cérebro para pensarem da mesma forma, para pararem de brigar, pois cada um sugeria soluções diametralmente opostas, medindo forças como lutadores belicosos.Tentando suscitar o óbvio, buscou no âmago do seu ser a fugaz alegria que incólume ali estava.
Correr para quê? Do quê? Estava bem aqui. Confortável e segura, tinha a si mesma como companhia e proteção... Conclusão irrefutável! Mas ainda tinha algumas pendências. Decidiu que ele era de jaez inócua. Jamais lhe faria qualquer mal porque simplesmente não podia. Estava implícito o quão perene era o seu sentimento e o quanto isso era importante para ela... Apenas para ela. Era de fato amor. E era esperança. E tristeza também mas, ao mesmo tempo, ambiguidade à parte, uma grande alegria. Alegria de ver que não estava sozinha e tristeza por saber que não havia para si outra companhia a não ser a dela. Naquele momento, uma constatação inefável lhe ocorria... Ela se bastava.
Olhou novamente para aquele rosto quase diáfano, marcado pelos anos e ainda tão querido, tão lindo. Viu o quão carente eram aqueles olhos sempre prontos para uma crítica, sempre severos, à espera de uma coisa, uma ação reprovável e concluiu, sem mais dificuldades, o quanto eles ansiavam o reconhecimento. Quase uma confissão de socorro.
Sentiu-se forte como há muito não se sentia. Suas pernas já não doíam e ela não tinha mais porque fugir. Parou de correr. Já não tinha que buscar um homizio. Seria feliz com o que tinha: a sua vida e o seu amor.