terça-feira, 5 de julho de 2011

O mais singelo

Era o final da tarde perfeita... Lá fora, um frio de rachar e aqui dentro um calorzinho agradável, fruto do forno ligado e de muito agasalho. O vento uivava seu canto, como num lamento insano a balançar os ramos, quase sem ânimo. Mas aqui dentro, cheiros vivos e risos alegres. Conversas sem métrica e pensamentos profanos...
Os cheiros, doces temperos, condimentavam a comida no tabuleiro.
Esperava, não com muita paciência, a chegada do fim da jornada. Estava cansada. Queria a fome aplacar e a sede acalmar. A sopa estava por um tris e o cheiro teimava entrar pelo meu nariz.
Estava quase no horário. Tirei do armário a louça impecável, a toalha de cor agradável. Arrumei tudo com esmero, mas com cuidado, sem exageros.
Olhava o relógio e contava minutos. Com vontade penso, matuto... Ainda dá tempo. Tempo de tomar um banho, colocar um casaco de menor tamanho. Afinal, o que quero mesmo é o que é belo. É mostrar para o meu bem o que tenho de mais singelo.
De novo a impaciência me dá consciência. Meu corpo, a fome... Fome de comer, de beber e de, o meu bem, ver. Não apenas ver, mas de querer. Querer a paz do fogo a queimar meu corpo e a fúria, antevendo o gozo.
Lá fora a noite já clama. A Lua, preguiçosa reclama. O vento levou as nuvens, as estrelas espantadas fizeram seu brilho. E eu ainda a espera do tempo da chegada, sem contratempo, do meu amado.
Então, tão rápido quanto meu banho cálido, chegou meu amado. Um sorriso cansado e um semblante abalado. Estava gelado. Deixei-o entrar e postei-me ao seu lado. Fiz-lhe carinhos tímidos e ouvi um leve gemido. Olhei seu rosto querido e, com um gesto matreiro, mostra-me no relógio o ponteiro. Os cheiros, da cozinha chegavam, embriagavam. A fome agora era o apelo que atendi com grande zelo. Carece matar do corpo a fome primeiro e depois, com calma, a fome da alma.
E assim, a noite começou calma. Mais um dia que se salva. Queria agora dançar uma valsa ou uma salsa... Então encosto no peito do meu bem a minha cabeça. Na cama quente, a pensar já começo. Sob a coberta pesada, o corpo amado encostado, ato totalmente encantado. Os sonhos adiados dão lugar ao ato esperado. O frio? Que frio? Este lá para fora partiu. O calor ansiado foi logo saciado e o corpo cansado foi logo largado, entregue ao contato do meu amado. Os sonhos finalmente chegaram. Amanhã será mais um dia calmo... Será?