sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Papai e o Maracanã


Havia no ar um cheiro de ansiedade quase insuportável. Um par de olhos infantis, curiosos e felizes passeava por todo aquele espaço observando com estranheza aquele mar de pessoas e bandeiras preto e brancas que tremeluziam freneticamente ao sabor do vento e do calor de quase quarenta graus. Botafogo x Santos - Maracanã - janeiro de mil novecentos e sessenta e cinco. De um lado, Didi, Nilton Santos, Garrincha, Amarildo e Zagallo; do outro, Pelé, Pepe, Coutinho, Zito, Mauro e Gilmar. Porém, o mais importante não eram aqueles nomes competentes e talentosos, nem os times a que pertenciam, não era o imponente Maracanã lotado, tampouco as bandeiras... o mais importante era o fato de, pela primeira vez, uma menininha de seis anos ia a um jogo de futebol sozinha com seu pai. 
Um pai enorme, bonito e forte que era tudo para ela. 
No colo dele aprendeu a "ler" as notícias do jornal, ao lado dele aprendeu o prazer do carinho, de ser chamada de "Cafuringa" e o valor de uma piscadela de olho. Ao lado dele entendeu o significado dos diálogos de palavras mudas e que um assobio podia pedir um café ou chamar quem se ama... 
Eu era aquela menininha de seis anos, de olhos curiosos e felizes, que repetiu cada gesto e palavra dita por seu pai naquele primeiro jogo de futebol que assistiram juntos. O Botafogo, como era de se esperar, venceu. Vi na multidão a emoção nos gritos de "gol!", nos incríveis dribles de pernas tortas do Garrincha e nos passes maravilhosos de Pelé. Naquele dia, com apenas seis anos de idade, resolvi que torceria para sempre para aquele glorioso alvi-negro praiano do Pelé que tantas alegrias e tristezas me deu. Meu pai escolheu outro time para torcer, outro alvi-negro com a segunda maior torcida do Brasil. E nunca brigamos por causa disso. Ele nunca foi fanático como eu. Se seu time ganhasse, ótimo... Se era o meu que ganhava: "seu time venceu, minha filha!" - dizia. Assistimos a muitos jogos juntos. Lembro-me dos jogos da Copa de 70, sob direção do Zagallo e dos gritos zangados do meu pai quando o Rivelino não conseguia fazer os gols em frente às traves e com os goleiros batidos. O Brasil ganhou. Papai nos colocou, os quatro filhos e mamãe, no Fusquinha cor de café com leite e fomos comemorar na Avenida Atlântica com toda a população do Rio de Janeiro e todos os fogos de artifício que foram produzidos naquele ano.
Meu pai era realmente um herói.
Mas qual pai não é um herói aos olhos de seu filho? Quem é o verdadeiro Deus de nossas infâncias, aquele que sabe todas as coisas, que detém todo o poder do Universo?
Papai...
Então cresci... Virei uma mocinha. Viemos para São Paulo, fiz novas amizades e vi meu pai se encher de ciúmes. Brigamos, discutimos... Coisas de adolescência. Casei e, no dia do meu casamento, enquanto estava às voltas com os cachinhos idiotas do meu cabelo e com a maquiagem borrada nos meus olhos, nervosa, vem meu pai com um copo de Whisky e um lencinho de papel: "tome um pouco disso minha filha e pegue o lenço... Cuidado para não borrar mais esse 'negócio' nos seus olhos". Olhei bem prá ele e disse: "ai papai... Será que vai dar tudo certo?" "Você gosta dele?" "Sim!" - respondi. "Então, calce logo os seus sapatos e vamos, porque senão você se atrasa." E, obediente calcei meus sapatos, limpei o borrado dos meus olhos, passei mais um pouco de batom e tomei o resto do Whisky que tinha no copo. Na igreja o vi emocionado ao lado da minha linda mãe. Ela estava séria, mas ele sorria. Naquele momento eu sorri de volta e pensei que ele estava feliz por se livrar de mim.
Meu pai esteve do meu lado em quase todos os momentos importantes de minha vida. Ainda hoje divido com ele meus problemas e minhas alegrias. Bem, nem todos... Sinto saudades de suas rabugices quando estou longe e tenho vontade de colocá-lo de castigo quando estou perto e assisto as cenas de implicância explícita contra quem quer que seja o infeliz que ousou ir contra alguma determinação dele.
Papai está envelhecendo... Quem não está? Só peço que ele ainda fique conosco por muito tempo. Desejo que ele possa sentir o prazer de carregar no colo mais um bebê, que desta vez vai chamá-lo de bisavô.