quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Questão de Semântica

Tenho pensando muito em todas as atrocidades cometidas contra Língua Portuguesa. Assim mesmo uma pessoa, já que a considero uma entidade com personalidade e sentimentos, que ora são felizes, ora tristes.
Ouço falarem em todos os lugares e vejo os grandes olhos de Língua se estreitarem, como numa agonia de dor, da mesma forma que eu, ao escutar frases soltas sem os devidos plurais, ou meninos falando entre si - que o meu filho imita com perfeição - 'tipo' periferia ou rapper, com todos os seus 'manos' e 'velhos', 'tá ligado'? Sem falar nos discursos políticos nada politicamente corretos que ouvimos 'a torto e a direito' por aí, como o célebre e infeliz "estupra mais não mata", entre tantos outros.
No entanto, regozijo-me com Língua Portuguesa, quando assisto uma reportagem de TV onde a moça, filha de uma analfabeta, se refere à cultura e aos livros que leu com amor e carinho, usando palavras simples mas bem pronunciadas, com todos os "esses" e "erres" nos lugares certos, agradecendo à sua professora a insistência quase agressiva de que seus alunos falassem corretamente. Corajosa!
Lembro-me de tantos diálogos quase incompreensíveis, trocados entre brasileiros, cujos únicos termos que entendi foram os pronomes substantivos e adjetivos usados, além de seus próprios nomes e assim mesmo com dificuldade.
Não que o meu jeito de falar seja perfeito, mas procuro, através da atividade que mais gosto que é ler, manter um vocabulário à altura de minha amiga Língua. Não tenho dúvida que, se todos experimentassem passar um dia inteiro que fosse falando um português afiado, sem erros ou vícios, veria o quanto é difícil isso. Minha amiga Língua Portuguesa é uma senhora exigente, cheia de vocábulos difíceis e quase nenhum senso de humor. E quando o tem - o senso de humor - ele é ácido e ferino.
Como se não bastasse a interferência, ainda que útil, de outras línguas como a italiana e a espanhola, admissível já que se tratam de línguas com a mesma raiz da portuguesa, o latim, temos o desprazer da interferência da língua americana (e não inglesa) que trouxe o terrível "gerundismo" para os nossos pobres atendentes de telemarketing. Concedo-me o direito de me abstrair de maiores comentários sobre o "gerundismo", para não cair em "clichês".
Tenho que concordar que não é fácil entender os processos semânticos da nossa língua, com todas as suas figuras de linguagem e suas subdivisões complicadas, de nomes incompreensíveis como, por exemplo, paronomásia, usada bem nas rimas poéticas, e outras, cujos nomes são tão difíceis que os obrigaria a consultar um dicionário para saber do que estou falando.
Enfim, "simples assim", não pretendo mudar o jeito de falar de ninguém. Mas gostaria de ouvir diálogos mais cultos e agradáveis, que tornariam minha amiga Língua mais contente.
E me perdoe aquele que me considerar pedante e pretensiosa, porque não é esta a minha intensão. Sou apenas uma pessoa buscando algum sentido nesta semântica.