sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Escrivinhadora

Sentada aqui, em frente à minha pequena telinha - sim, porque ela é mesmo minúscula - olhando a enorme mesa do escritório, que divido com a equipe da qual faço parte, penso no quanto é divertido estar aqui, mesmo que às vezes me sinta perdida em meio a tantas pilhas de papéis, cadernos, livros, agendas e uma quantidade inacreditável de lápis e canetas para apenas três, às vezes quatro pessoas usarem. Há alguns dias, tive uma espécie de pesadelo no qual me afogava num mar de papéis. Resultado, no dia seguinte resolvi "arrumar" a nossa mesa. Depois disso tive apenas uma certeza: impossível!!! Como viver sem os cadernos para tomar as infindáveis notas que são o material de nosso trabalho? Como viver sem as agendas, que são a ordem de nossas vidas? Pior, como viver sem uns lápis e canetas para escrever tudo isso? Contei sobre o pesadelo para uma amiga e o resultado de minha tentativa de organizar o inorganizável. Rindo muito ela me perguntou porque eu simplesmente não abolia toda esta quantidade de papéis e objetos 'escrevíveis' e passava a usar somente o computador? Depois de divagar um pouco - todo escritor tem argumentos infalíveis - respondi-lhe que, caso o fizesse, estaria indo contra o que mais gosto na minha vida de 'escrivinhadora' - mistura de escritora com sonhadora... Preciso sentir o toque maciamente áspero do papel, aquela textura inconfundível que nos remete ao passado remoto de nossas primeiras descobertas sobre cores e formas, as primeiras letras escritas em cadernos que nos foram dados por papais e mamães ansiosos por nos verem aprender depressa. Preciso sentir o geladinho da caneta metálica bonita que encontrei no porta canetas e que tem uma escrita ligeira e macia, ou as texturas diversas da cera colorida que recheia os lápis de cor e com os quais faço marcas importantes nas minhas anotações. O papel e o lápis me causam empolgação, uma sensação de ansiedade que parece só ter fim quando finalmente termino de escrever o que é necessário. A maioria de minhas estórias começa com anotações escritas em cantos de papéis geralmente à lápis. A sensação de euforia que me toma depois que consigo passar para o papel aquilo que depois passarei para a tela do meu computador, só posso comparar a uma boa xícara de café com leite fumegante acompanhada por um pão quentinho com manteiga derretendo por cima... Estes momentos são únicos. Não têm preço.
Então, ainda sentada à minha grande mesa continuo a olhar a bagunça meio organizada que está sobre ela e penso no quanto iria ficar desolada caso a limpasse de todas essas coisas lindas, coloridas e totalmente inspiradoras que fazem parte integrante de minha vida. Jamais saberia viver sem os meus livros e meus cadernos mas, para ser absolutamente justa, para o resto de minha vida não poderei viver sem este delicioso papel e lápis virtuais que me proporcionaram mostrar ao mundo um pouco do que sou.