domingo, 30 de outubro de 2011

Como um Tango de Gardel

Acordei... Ainda era escuro e chovia... Chovia muito. Uma chuva de gotas grossas e quentes, como as lágrimas que, teimosas, escorriam dos meus olhos. Porque chorava? Terei tido um sonho ruim ou era apenas saudades... Olhei à minha volta e estava só... Tudo era silêncio, a não ser o insistente tamborilar da chuva no telhado e o vento, fustigando as folhas perplexas das árvores próximas, sem nenhuma pena.
Trovões ribombaram na noite clara, como o meu próprio coração que, com seus pulos, sacudiam meu corpo. Estava viva! Disso sabia...
Meu pensamento voou... Foi ao encontro do vento, desabalado com a pressa dos desavisados, em busca de nem sei o que... Ou será que sei?
O vento uivante entrou sem nenhuma cerimônia pelas frestas da veneziana, levantando as cortinas da janela como um amante a observar sem pudor o corpo da mulher amada. Minha pele, totalmente arrepiada, suava o frio da madrugada e ansiava, na prece silenciosa e calma, o calor morno da inquieta alma, sempre a dançar, no chão ou no teto...
A noite clamava por calmaria... Minha alma, meu corpo disso carecia... Olhei o céu escuro e amarelado. De cima, brotavam as gotas furiosas que molharam minhas mãos e rosto e se misturaram às minhas lágrimas. Não tinha mais o gosto salgado dos meus anseios, mas o gosto doce do sossego. Não via mais a dança louca das folhas nas árvores. Via, na torrente ruidosa da água na rua, o tango sensual e exato nos movimentos.
Voltei aos meus lençóis e, ao abraçar meu travesseiro, pensei ouvir a dança da noite, a noite para a qual o tango era perfeito... Como um Tango de Gardel.