sábado, 22 de outubro de 2011

Unhas Vermelhas

Hoje estou com saudades... Uma saudade doída, profunda, de coisa não resolvida, de sonhos que tenho e da fome que sinto, da poesia que brota como fonte benfazeja a me matar a sede e lavar a poeira.
Hoje peguei-me a rezar... Não tinha exatamente motivos, mas sabia que motivos não me faltavam. Enquanto pintavam minhas unhas, de vermelho, olhei-me no espelho. Vi minha imagem refletida e ela estava borrada, pois a via por trás de minhas lágrimas insistentes e teimosas. Chorava... Não um choro triste, mas um choro antigo, como lembrança da menina feia e magra que fui, a olhar para o futuro. Lembrei-me de um sonho que tive. Era um sonho medonho, um pesadelo, eu diria... Corria descalça sobre pedras numa rua, perseguida por uma sombra obscura e sem forma... Ainda penso neste sonho. Muitas vezes... Em algumas eu rio - bobagem de menina. Em outras, me arrepio e tenho medo. Então pergunto: será esta sombra minha sina?
Ainda pintam minhas unhas, de vermelho. Pelo espelho à minha frente procuro a sombra insistente e a encontro na outra parede. Disfarçadamente enxugo as lágrimas... Novamente. Olho firme para ela e a mando de volta para o sonho.
Ela, porque tem vida própria, me encara com escárnio e mostra sua cara... Então, dos seus olhos vivos e cínicos, brotou finalmente a resposta: "venha comigo para o sonho, procure em você o que está buscando!"
Mas o que busco não tem forma de sonho... Não é o desejo ou sonho de uma menina feia e magra, mas de uma mulher feita... Feita de vida e de dores... De olhares ainda doces que vislumbram num espelho a vontade de grandes amores.