sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Fome...

"Cara de sem-vergonha"... Era essa a cara que me olhava do espelho. O que é que você vai aprontar desta vez? Perguntei-lhe perplexa e já um tanto constrangida... "Foi só um sonho, sua boba!" Respondeu-me rindo aquele riso cínico meio desconhecido e tolo. "Vá logo, entre no chuveiro antes que a fumaça quente apague do espelho essa sua cara amassada de cabelos despenteados..." E ela - a do espelho - riu. Debochada.
Senti a água quente escorregando pelo meu corpo, quase quente demais. Mas eu estava com frio e sonolenta, ainda com as sensações vívidas de sonhos inexatos e reais... Encostei-me na parede fria e busquei, no fundo dos meus desejos, a vontade para mais um dia. Longo... Senti o cheiro de limão do sabonete verde e ensaboei a escova macia. Esfreguei minha pele até que ela ficasse vermelha e ardida... E no fim eu cheirava a cloro, calor e limão. Apaguei - momentaneamente - as impressões do sonho e escolhi a roupa para o dia. De novo a cara do espelho sorria o sorriso cínico e me dizia: "não, não... Essa roupa está meio fora, não é?" Então respondi-lhe: Cale a boca, vou assim mesmo!!! Vestido curto e sapato sem salto significam conforto. E hoje é o último dia da semana. Ainda bem. Passei o delineador nos olhos, o perfume atrás das orelhas e sequei os cabelos. Uma última olhada no espelho e mais uma versão de um sorriso nada meigo... "Sem-vergonha!" Uma leve contração no estômago e a lembrança de que estava com fome, muita fome...