quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Só uma camisola por cima

Eu devia ter uns sete ou oito anos. Naquela época eu achava o máximo andar sobre os sapatos de salto de minha mãe, fazendo barulho no assoalho com as pontinhas metálicas. Havia um par de sandálias, cinza com saltos prateados que eu particularmente amava. Pegava escondido da sapateira e calçava os meus pezinhos lá. Achava-me uma verdadeira adulta, cheia de charme em poses de perua... Um dia, pensava, eu seria como a minha mãe. Linda, loura, com fartos seios metidos em sutiãs  de rendas coloridas, combinando com as calcinhas. E usaria vestidos de tecidos floridos, decotados, bem cinturados e pregueados, e as sandálias... lindas sandálias em saltos de metal. Nunca fui loura, tão pouco com seios fartos. A moda daqueles vestidos foi e voltou... várias vezes. As sandálias cinza perderam os saltos prateados e ganharam saltos da mesma cor com acabamento de couro e, com isso, perderam também o encanto. Não faziam mais aquele barulhinho no assoalho que tanto me encantava e cujo som ainda ouço em minha memória. Os sutiãns e as calcinhas de renda? Bem, esses fazem parte de minha vida, embora hoje eu prefira outros, ainda que não sejam tão sensuais como aqueles.
Hoje, quase tudo o que quero é descer dos saltos, pisar os meus pés no chão e tirar as roupas apertadas. Sutiã e calcinha? Só uma camisola por cima. Das poses de perua, só desejo uma: aquela que se faz deitada numa cama, sobre lençóis branquinhos, fresquinhos e macios, um sono tranquilo cheio de sonhos e nenhum monstro embaixo da cama a me amedrontar. E seria ótimo alguém para partilhar...
Daquela menininha de sete ou oito anos, sobrou apenas o olhar ansioso, querendo ver rápido o que o futuro reserva, uma vontade louca de ser feliz e o mundo inteiro aos meus pés...