quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Nudez

Estava chovendo... Eu sabia. Abri o guarda-chuva e esperei na calçada para atravessar a rua. Uma raiva subiu pelo meu corpo, como uma febre... Uma febre corrosiva, destrutiva. Naquele momento, certamente picaria os dois motoristas que, sem pena, passaram por cima das poças de água imunda, molhando toda a minha roupa. Fechei o guarda-chuva e olhei para o céu. A chuva caia forte molhando a minha cara. A água limpa escorria pelo meu corpo, me limpando a raiva e a suja água... Atravessei a rua com calma, devagar, enquanto a chuva fazia minha roupa encharcada grudar na minha pele. Senti-me nua. Sensação que compartilhei com quem passava e me olhava, de soslaio ou pouco disfarçado... Naquele momento, o que importou o cansaço, os mal entendidos, as palavras mal escritas... O que importou o que pensavam de mim... Estava nua. Não despida das roupas que vestia, mas dos sentimentos difíceis que sentia. E a chuva caia. Limpava minha pele e minha vida como se sabão fosse. E eu sorria... E sorri para os que passaram me olhando, olhando a minha nudez.
Continuei andando sem pressa, curtindo aquele momento sem nenhuma reserva. Aproveitei cada minuto daquela sensação de total liberdade, sem roupa, sem maldade...
Os olhos foram se desviando, os sorrisos mal disfarçados foram se fechando e a chuva amainando. Tudo o que queria agora era chegar em casa. Cheguei... Hora agora de tirar a roupa - de verdade - tomar banho quente e ficar bem quietinha encolhida com minha caneca de café com leite.