sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quimera

Gotas de chuva gelada caiam do céu cinzento. Molhava meu rosto sem pena. No ar úmido, um cheiro doce de terra molhada aguçava meus sentidos e me levava a um tempo de risadas. Ao longe ouvia o ribombar dos trovões. Olhei para o céu em busca dos raios... Não os vi embora os procurasse ansiosa. O vento ruidoso transportava as folhas desgarradas que batiam em meu corpo arranhando minha pele... Tempestade.
Desisti de esconder-me e apresentei-me como se aquele fosse um palco iluminado. Abri meus braços como um Cristo e abracei a chuva com gosto. Olhava para cima. Arregalei os olhos o mais que pude e finalmente um raio cruzou o céu, como um pássaro veloz corre para o ninho.
O dia ia ficando cada vez mais noite. Noite adiantada num dia ainda pouco avançado. Minha pele arrepiada sentia o fustigar de mil gotas. Estava toda molhada mas um calor me subia às entranhas. Remetia-me às mais doces lembranças. Por que minhas melhores imagens vêm da memória inefável de tempestades? Abraços apertados em roupas encharcadas, cabelos pingando escorrendo pelos ombros, pés descalços pulando em poças, gosto de chuva e um hálito quente.
Tempestade.
Como uma fada, criei asas. Estava quase dourada. Em meu devaneio vi-me voando sobre o caos de pessoas e carros, enxurrada de água e desejos. No horizonte divisei o paraíso. Vi se formando um lindo arco-íris. Onde está o pote de ouro? Quimera...
Grudada ao meu corpo, minha roupa molhada reclama um estrago. Tento cobrir-me pudica, mas desisto. Nada há nada a fazer a não ser procurar um lugar seco. Agora estava com frio. Desejei um abraço gentil... Porque sinto-me assim tão febril?
Tudo no mundo é fantástico! A Vida é mesmo feérica e o prazer que sinto por ela é tão grande quanto o prazer do vento revoando os meus cabelos, ou a chuva forte fustigando minha pele e o sol me tornando morena. As cores e os sons da Natureza... É, isso é Vida.