domingo, 5 de fevereiro de 2012

DOR

Queria começar este texto com uma prosopopeia simpática do tipo "hoje a calçada me beneficiou com sua singela textura, o que me deu imenso conforto"... Mas não foi assim. Andar com uma bengala até poderia ser elegante, se fosse apenas um acessório como um chapéu, uma joia ou uma linda bolsa LV. A bengala para mim, nestes últimos tempos significa um meio de locomoção, uma forma de dizer para as pessoas que eu estou tendo dores e dificuldades para caminhar. Não posso dizer que não seja divertido olhar as caras delas - caras de pena - ao me encarar ou me dar o lugar em que estão para o meu conforto.
Esses dias fui ao mercado e fiz uma coisa que há muito queria fazer: andar na cadeira de rodas motorizada com cesto para as compras. Acho que foi um misto de constrangimento e diversão e, no fim, descobri que um portador de deficiência física ainda tem muito a conquistar. Por exemplo, os caixas especiais dos supermercados contemplam os idosos, gestantes, obesos, pessoas carregando crianças de colo e, por fim, os portadores de deficiência. Olhei aquela enorme fila e o conteúdo de minha pequena cesta. Calculei ficar naquele sufoco por mais de uma hora, senão duas. E as dores ali, cutucando-me, chamando minha atenção e até me aconselhando a ir embora, largar tudo o que havia escolhido com certo sacrifício e ir embora, de volta aos meus inseparáveis amigos dos meus tempos atuais: uma bengala e um sofá... Olhei para todas aquelas pessoas que estavam na minha frente, suadas, cansadas, crianças impacientes querendo sair dos colos de seus pais e correr... Olhei para os semblantes esgotados das meninas dos caixas e perguntei-me o que eu estava fazendo ali. Tomei a decisão mais acertada e larguei tudo: o carrinho/cadeira e as compras e peguei minha amiga fininha, minha dignidade e o resto que me sobrava de sanidade e fui embora.
Vislumbrar minha casa, meu sofá e o remédio que me faria ter algum tempo de alívio, provocou-me uma cocegazinha na barriga... Que compras o que!
Hoje, o que mais penso é voltar ao normal, é ter minha mobilidade de volta e aposentar de vez a bengala e os remédios. Quero voltar a ver a poesia como a válvula criativa que é para mim e ter prazer de fazer novamente todas as coisas que fazia antes das dores. Quero acordar de manhã, esticar meu corpo ainda adormecido, pular da cama, tomar um demorado banho morno, cheio de cheiros adocicadamente cítricos, espalhar o creme pelo meu corpo com o prazer que sempre tive e ser de novo a mulher que sou, sem dores.