domingo, 12 de fevereiro de 2012

Pai

Oi pai!
Estou aqui olhando pela janela. Está tanto calor... Parece que daqui a pouco vai cair o maior temporal, como aqueles que caiam lá na casa de Santa Tereza e que o senhor nos incitava a correr pela chuva, quando ríamos até cansar enquanto tomávamos banho naquela água geladinha que caia doido em nossas costas.
É... Lembro sim! E lembro-me também de tantas outras coisas... Nem sei se o senhor se lembra também mas, se já esqueceu, quem sabe consigo reavivar sua memória...
Acho que eu tinha pouco mais de um ano e lembro de estar me divertindo com a areia de Copacabana, enquanto o via correr para o mar. As ondas batiam barulhentas e a espuma voava para todos os lados. Ouvia o tio Osmar tagarelando ao meu lado e, de repente, o senhor voltou correndo e me agarrou no colo com força, tremendo e sua voz saiu assustada, bronqueando com o tio que havia me deixado sozinha...
Mais tarde, já uma garotinha, estava assustada sob a água do mar, vendo um céu em ondas e, de repente, suas mãos agarraram os meus cabelos curtos e me ergueu da agonia de um quase afogamento... Ai, pai! Que alívio!
E tantas vezes que o senhor nos colocava os quatro no Fusca e nos levava para passear no Museu de Arte Moderna ou nos jardins do Aeroporto Santos Dumont, ou no Parque Lage, ou no Parque da Cidade... E quantas vezes fomos ao Jardim Botânico? Lembra daquela enorme árvore cheia de "cavernas" onde nos escondíamos para brincar?
Ah! Quantos jornais eu "li" acocorada nas suas pernas, virando as páginas quando o senhor pedia e toda orgulhosa de estar fazendo uma coisa muito legal com o senhor.
Então cresci... Pena! Já não era mais a Cafuringa do papai. Entreguei o "posto" para a Cafuringuinha menor. Justo. Eu já era uma mocinha.
O tempo passou, tornei-me adulta e um dia resolvi casar. No dia do meu casamento, depois de ter desfeito toda a maquiagem e escovado bem os cabelos que não gostei, estava nervosa. Com um sorriso e nenhuma palavra o senhor me ofereceu um copo de whiski que tomei quase de um gole só, queimando agradavelmente minha garganta seca e apertada. Fomos para a igreja, eu no meu vestido/camisola e o senhor de mão dada comigo, suando. Entramos na igreja, o senhor apressado e eu o segurando... No altar, o padre caquético rezava o casamento e olhava para o meu decote. Eu ria enquanto tremia. O casamento terminou em abraços apertados e promessas.
Tive meus filhos, seus primeiros netos, o senhor mudou-se para a praia. Vimo-nos menos do que queríamos e isso nos dava tantas saudades... Escrevemos nossos livros, o do senhor publicado em papel, orgulho que ostento com carinho, quando o indico para jovens administradores, e os meus publicados virtualmente e não menos motivo de orgulho para esta filha que tanto se espelhou neste pai que algumas vezes teve dificuldades para aceitar a contemporaneidade de uma filha rebelde e pouco afeita a tradições...
Amo o senhor papai... Sempre e prá sempre!