sexta-feira, 11 de maio de 2012

Estória de Amor

Entrei naquele lugar intimidada, quase assustada. Era sério... Se não dissesse as palavras certas,seria condenada... Sentei-me ereta, tensa, segurando meu Livro com força no meu colo, enquanto percebia minhas mãos suarentas sujando a capa preta Dele. Eis que, ao meu lado, senta-se o enorme e quase etério homem. Dá-me um sorriso quase simpático e começa... Diga-me filha, os seus pecados. Olhei para ele e pensei: "conheço o senhor? Como assim confessar a um homem que nunca vi na minha vida?"
Mas eu tinha apenas doze anos. Corajosa e segurando a pequena Bíblia e um singelo terço de cristal, pensei no discurso que vinha decorando durante toda aquela manhã... "Ah, 'seu' padre, perdoa-me porque pequei, não ajudei a velhinha a atravessar a rua, fui malcriada com minha mãe, bati no meu irmãozinho (detalhe, o meu irmãozinho ao qual me referi, era o meu melhor amigo e companheiro inseparável - os outros eram muito pequenos para brincar ou sequer 'bater'), e não arrumei o meu quarto como a minha mãe pediu."
O ar indulgente daquele padre gigantesco, 'condenando-me' a rezar nem sei mais quantas aves-marias e mais um tanto de pais-nossos, me deu vontade rir...
Hoje olho para trás e percebo o quanto eu podia ter feito com a minha mãe e que não fiz, o quanto sei que ela se preocupou comigo e eu nem dei atenção, o quanto fui rebelde... .O quanto 'pequei'. E isso, nem ao menos a religião me aliviou, já que nunca mais 'confessei' pecados a nenhum padre.
Minha mãe sempre foi uma grande mulher. Pacata, resignada com os revezes da vida, compreensiva, sempre disposta a um sorriso, mesmo que a situação fosse terrível, ensinou-me a ser o que hoje sou. Sem reservas, sempre nos falou sobre coisas que outras mães - a maioria - nem sonharia dizer a uma filha, por hipócrita timidez ou omissão sem reservas... "Mãe, como se põe um neném na barriga e por onde ele sai?" E lá vinha ela com suas estórias encantadas e coloridas, explicando sem preconceito ou vergonha as nossas primeiras lições, fazendo-nos rir excitados ou sonhar sonhos de vida, de gente grande...
Minha mãe é a mulher mais linda, inteligente e sensível que conheço. Graças a ela escrevo com prazer o que sinto, o que vivo e o que quero. Graças a ela, resolvi ser mãe... E graças a ela quero ser a avó amorosa e feliz que ela tem sido para os meus filhos.
Feliz Dia das Mães, Anele! Felizes todos os santos dias de todo o resto de sua vida!