terça-feira, 19 de junho de 2012

Você me bagunça

Sentada, quase tranquila, quase calma, assistia ao jornal matinal. Tinha à minha frente uma pequena bandeja com o meu café da manhã. Todos os outros da casa já haviam saído para os seus compromissos. Restei-me sozinha e entediada. Entre uma mordida no pão aquecido com manteiga e um gole do meu café com leite fumegante, como gosto, ouvia despretensiosamente as notícias diárias, ditas de forma impessoal, como se elas não afetassem minimamente os apresentadores.
Senti a comida frugal embrulhando-me o estômago. A televisão mostrava uma série de tragédias, mortes, roubos, esquartejamento... Quase podia ver o sangue escorrendo pelos furinhos dos auto-falantes, formando uma grande e redonda poça no chão. Bela forma de começar o dia... Mudei de canal. Neste, a imagem era de um político sorrindo, intimamente orgulhoso de safar-se de um processo por improbidade. E não parou aí... Outra notícia falava sobre o aumento salarial dos nossos representantes políticos - que foram eleitos por nos mesmos - já que agora eles não tinham mais os quinze salários anuais, além de todos os benefícios. Sem comentários...
Ouvi também sobre a fraude dos concursos públicos, cartas marcadas para parentes e amigos, um claro desrespeito àqueles que honestamente passaram anos e anos estudando para ter um futuro melhor, como funcionários públicos. Sem comentários...
Ouvi ainda a notícia de que os planos de saúde não têm vagas para consultas - como determina a Lei que estipula entre sete e quatorze dias o prazo para agendamento de consultas - mas encontram a mesma vaga para o dia seguinte, caso o paciente concorde em pagar pela consulta. Continuo sem fazer comentários...
Então, ouvi uma notícia sobre construções auto-sustentáveis, com materiais reciclados, sem entulhos e com prazo de construção reduzido para quase um terço do normal. Gostei disso. Gostei também de saber que o rio Tietê pode ser despoluído num prazo de mais ou menos quinze anos. Significa que os meus netos poderão nadar nele, como o meu pai, em sua juventude nadou. Afinal, o que são quinze anos? Apenas uma geração, segundo o IBGE.
A vida é mesmo uma coisa estranha... Usando a poesia de um grande amigo, o Fabrício Franco, "No jogo das moedas, ou fico ou passo... Melhor: ou fícus ou pássaro". 
Jornalismo, você me bagunça... Bagunça minhas ideias, minhas vontades, meus conceitos. Porque será que só as tragédias atraem os telespectadores? Porque não falar de flores?