quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Celular e o Sashimi



Não tinha nada para fazer naquele dia quase quente no meio do inverno. Sentada à uma mesa na praça de alimentação, comecei a pensar nos últimos acontecimentos.
Acabara de sair do cinema – sessão das doze e trinta - e ainda guardava na memória as impressões daquelas duas horas. Era uma aventura infanto-juvenil e tanto... O cinema, naquele horário, estava quase vazio. Barulhinho de pipoca estalando na boca e pequenos risos histéricos quando a cena assustava. O interessante é que éramos, nós os adultos, a maioria na sala escura. As poucas crianças mal se faziam ouvir, intimidadas talvez com as poucas pessoas. A certa altura, um celular tocou sua música num volume que deu arrepios... Era um pagode. Ao menos a introdução. O dono, sob os olhares de censura dos vizinhos, tratou de... Atender? No meio do filme? Silêncio! Pediram alguns, risinhos, outros deram, mas o sujeito, com a maior cara de pau, continuou sua lenga-lenga ao telefone, sussurrando palavras quase incompreensíveis para um interlocutor que provavelmente nem sabia onde o sussurrante homem estava. Alguém lá na frente levantou-se e gritou: “disligaíô!!” Nestas alturas o homem sussurrante começou a bufar e acabou desligando o celular. Ótimo! De volta à aventura cinematográfica. Três ou quatro minutos mais tarde, de novo a introdução ao pagode do celular do “homem sussurrante”. Foi um tal de “shhhs”, “tscs”, “sacos” e etc, que mal deu para ouvir os sussurros. O homem lá da frente levantou-se novamente e, voz bem alta informou: “ou disligaí ou quebro!”. O sussurrante respondeu baixinho: “droga, tô trabalhando... vemdisligáintão!” Mas estava tudo escuro e todos paramos de respirar esperando o desfecho. Do filme? Da briga? O que estava mais emocionante a aventura na telona ou o clima da vida real? Uma senhora timidamente falou: “minha gente, vamos ver o filme que bom!” ao que o valentão respondeu: “quando o palhaço parar de falar no telefone...” “Ah, sentaí e pára de falar você ô valente!” - disse mais um. E eu, quietinha pensei: isso não vai dar certo... Bem, só para resumir, entrou na sala a moça que rasga a entrada e disse que, se houvesse mais discussão, interromperiam a sessão. Silêncio... Ninguém falou mais nada. Discretamente vimos um homenzinho magrinho sair da sala pela porta lateral com um celular brilhando na mão, mas ninguém ousou emitir nenhum som. O filme novamente passou ser o foco principal dos espectadores.
E cá estava eu, sentada confortavelmente em frente ao restaurante, esperando chamarem meu número... Faminta. Esta estória de ir à sessão das doze e trinta sem comer nada antes, não era muito certa. Aproveitei para dar uma olhada em volta. Acho que raramente estive na praça de alimentação do shopping àquela hora, em pleno dia útil. Estava quase vazia. Uns poucos famintos como eu devoravam seus lanches duplos com coberturas de batatas fritas e copos de refrigerante enormes. Como eu, pensavam na vida, no trabalho, no que tinham ainda por fazer... E o meu almoço ainda não estava pronto. Porque não escolhi também um destes lanches rápidos?  De repente, ai arrepio, aquele celular bendito e sua introdução ao pagode... Bem na mesa ao meu lado. Olhei discreta para seu lado e quase ri ao ouvir os sussurros de novo. Apurei os ouvidos e comecei a entender o assunto. Era mesmo uma discussão e parecia ser com uma mulher. Ele tentava explicar porque estava num cinema àquela hora do dia. Corajoso o baixinho... Fiquei imaginando como seria sua vida junto com a mulher do celular. Mais alguns minutos e o bin-bon me chamou. Lá fui eu buscar minha bandeja cheia de sushis e sashimis, minha tigela de misoshiro e meu copo de chá quente. Comi com a avidez de quem estava há muito sem comer. Comi até os enfeites de salsinha japonesa e cenoura com nabo ralados. Estava ótimo. Tinha que estar, pelo preço que cobram... Fiz as contas: salmão, custa uns vinte e quatro reais o quilo, atum talvez uns vinte reais, arroz japonês, uns cinco reais o quilo, cenoura, três reais e nabo, uns cinco reais. Ah, esqueci das folhas de algas, salsinha japonesa, gengibre em conserva doce e Wasabe (raiz forte). Levando em consideração que comemos uns duzentos gramas de peixe, cem gramas de legumes ralados e mais uns duzentos gramas de arroz, senti-me uma perfeita idiota por pagar quase quinze vezes a mais do que o meu prato custaria se eu mesma o fizesse. Mas então, não estaria sentada numa praça de alimentação no meio de uma tarde quente de inverno, ouvindo ainda sussurros ao celular e depois de ter assistido a duas aventuras ao mesmo tempo numa sala escura. E não teria nada disso para contar...

Texto de minha autoria publicado no livro "Cronicidades" (Editora Incult Produções Culturais)