sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Maia

 A vida passa lá fora. Enquanto a vejo passar sinto o vento morno e indócil que balança minhas cortinas. Aqui dentro as imagens se confundem, se esvanecem atrás dos meus olhos chorosos. Sinto no ar o cheiro da terra molhada, da chuva que não chega nunca. Já não há mais sol lá fora. Por dedos trêmulos escrevo estórias sem fim, enquanto um pequeno ser de dentes afiados insiste em mastigar meus braços cansados e lamber-me o sal do suor já seco do trabalho terminado.
Não pensei que uma criaturinha tão pequena pudesse fazer tanta diferença. Entrou na minha vida sem nenhuma cerimônia e fez nela uma bagunça sincera, sem tamanho. Faz-me a companhia que me faz falta, fala-me de amor com seus pequenos olhos castanhos, mostra-me o infinito na forma de um coração, gravado em preto e marrom no seu pelo branquinho e imaculado, como já não são os meus sonhos. Morde-me com voracidade e alegria e cresce mais rápido do que eu gostaria. Chama-me todas as manhãs com sua voz em forma de "au" e despede-se todas as noites com um beijo lambido e molhado. Sei que preferia estar ao meu lado, em minha cama fresquinha e limpa, mas não é o caso.
Maia, minha pequena e doce menininha cachorro. Você é linda com seus olhos de zorro e seus dentes de lobo, a correr pela minha casa, minha vida, atropelando minhas pernas com seus passos de foguete.
Obrigada lindo bebê por ter vindo e tornado meus dias cheios. Minhas lágrimas são de pura alegria, uma maternidade tardia e inexata, estranha até, eu diria.
Agora meus dias estarão mais cheios, mais ocupados e mais felizes.