terça-feira, 11 de setembro de 2012

Monstro

São dez e meia da noite e estou aqui com Maia, sozinhas em casa. Em minha mente um turbilhão de imagens e palavras. Olho para um lado, para outro e, de repente, vi a porta entreaberta do meu guarda-roupa. Lá habita um monstro... O monstro da minha meninice que insiste em ficar sempre comigo. Não que seja uma companhia ruim este monstro... Ele até parece um cara legal, mas quando abre a boca... Nossa! São tantos dentes e línguas... Sim, muitas línguas, porque tem que ficar me dizendo a todo momento o que devo fazer ou deixar de fazer. Ainda hoje ele me disse devagar em meu ouvido que queria ouvir-me cantar. Eu cantar? Com essa voz rouca de gripe só sairia um monte de acordes desencontrados e desafinados. Lembrei-me então da minha primeira professora de piano, a Ana Maria Brandt. Ela era linda e tinha uma paciência de Jó comigo. E eu adorava subir a rua Almirante Alexandrino para encontrá-la duas vezes por semana. Que pena meu pai ter sido transferido para São Paulo e eu ter que vir junto... Nunca mais tive aulas de piano.
E o monstro continuava a me pedir que cantasse. Está bem Monstro, se é para você parar de me atazanar... Mandei um "Pierrô Apaixonado", marchinha despretensiosa composta pelo Heitor dos Prazeres e pelo Noel Rosa. Cantei-a tantas vezes que ele enfim desistiu e pediu-me que parasse. Ri e ri tanto que lágrimas me saíram dos olhos. Enfim venci o coitado que se meteu de novo no armário de onde só sairá novamente amanhã, com os primeiros raios do sol que penetram sem nenhuma cerimônia pelas frestas da minha janela. Então ficarei à espreita, esperando qual nova exigência meu fiel Monstro fará...
Acho que estou com sono. Boa noite Monstro!