terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fim do Mundo

Sempre soube que sou essencialmente urbana... Essencialmente paulistana, mesmo tendo sido criada no Rio de Janeiro, de onde conservo ainda os "errrex" e os "essex", para desespero de alguns que se irritam quando me ouvem falar. Não faz mal, é apenas um sotaque que mantive meio que por charme.
Adoro esta cosmópolis cheia de engarrafamentos, cheia de gentes indo e vindo, num balé interminável diuturnamente. Adoro os cinemas, teatros e restaurantes que deixam esta cidade com gosto de cidade-mundo. São "n" estórias lindas ou não, de pessoas que vieram de outros estados e outros países. São pessoas lindas, bonitas, mais ou menos ou feias mesmo, mas e daí? Todos estão cuidando de suas vidas, como tem que ser, todos tentando fazer de suas vidas a estória mais bonita possível.
Tenho lembranças de quando era pequena, lá no Rio, onde íamos sozinhos à escola que ficava na esquina de casa, vestidos em nossos uniformes de camisas brancas e saia (ou shorts) azul marinho. Nesta época, minha mãe ficava debruçada na janela do apartamento da rua São Clemente, no quarto andar, nos olhando até que nos perdêssemos de suas vistas. Naquele tempo, mesmo com o advento da revolução militar que deu início à ditadura maldita, minha mãe nos aconselhava a sempre procurar um policial, caso tivéssemos algum problema, o que jamais aconteceu. Mas só o fato de vermos um policial em nosso caminho, nos deixava tranquilos e à minha mãe também. Mas nós crescemos, mudamos de bairro, fomos para uma tranquila rua em Santa Tereza, onde nos avizinhava um importante militar, um general com cara de bom velhinho cujos guardas costas protegiam sua casa e toda a rua. Era reconfortante saber que militares estavam nos cuidando.
Depois, cresci mais ainda e todos viemos para São Paulo. Ainda assim, nos sentíamos seguros porque nossa mãe nunca deixou de acreditar na força da justiça, no abraço terno dos protetores da sociedade...
Enfim, tive meus filhos numa época em que dizer "procure um policial" poderia ser uma faca de dois gumes. Preferi então dizer aos meus filhos que me telefonassem que eu os tiraria de possíveis apuros, o que jamais aconteceu, graças a Deus.
Agora, minha cidade está vivendo uma verdadeira guerra civil. Policiais estão morrendo nas mão dos bandidos. Estamos sitiados em nossas próprias casas, com medo de policiais e bandidos, sem esperança de que o terror das execuções sumárias nunca chegue perto de nós. Hoje, tenho medo de um futuro incerto, como tenho do fim do mundo - teoricamente em vinte e um de dezembro próximo - será o que estamos vivendo um sinal para o fim?
Quantos ainda vão morrer por serem policiais e quantos inocentes vão perder suas vidas por estarem ligados a policiais? E quantos bandidos vão morrer só por não terem opções de uma vida mais digna? Quando vamos ser uma sociedade que apoia seus cidadãos, que provenham de escolas dignas, de respeito ao próximo? Quando vamos poder andar novamente, cumprindo a máxima da nossa Constituição, onde todos têm o direito de ir e vir livremente?
Meu Deus! Quero a minha cidade de novo. Posso?