quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O último dia

Hoje é o meu último dia. Último dia antes do resto da minha vida. Desculpe-me pelo cliché. Levantei de minha cama hoje cedo, ainda de olhos fechados e fui tateando até o banheiro. Finalmente o meu amigo Sol deu o ar de sua graça ainda cedo. Lavei meu rosto, ainda sem abrir meus olhos e enxaguei minha boca com o líquido ardido. Ah! Agora sim, posso voltar a me encarar. E o espelho devolveu-me, como numa vingancinha barata uma imagem p'rá lá de estragada. Onde está a bacia cheia de gelo para tentar acordar minha cara, já que o cérebro estava bem alerta? Olhei os olhos fundos e inchados - quase uma contradição - e fiquei esperando que alguma coisa acontecesse. Bem, como não aconteceu nada, enxuguei meu rosto um tanto decepcionada e voltei para minha cama... Sentei-me apenas. O dia ia ser longo. Longo e calorento, era o que me dizia o Sol.
Pensei em todas as coisas que tinha que fazer, típicas de quem "está" dona de casa, como passar roupas, lavar o quintal e tirar o cocô da garagem, presentinho da Maia. E ainda tinha que resolver sobre o cardápio do almoço. Não tinha a menor fome. Como é chato cozinhar todos os dias. Adoro cozinhar, mas sem essa de obrigação.
Mas então voltei a pensar no meu último dia... O último dia com cinquenta e três anos. É tanto, né? Engraçado como temos uma interpretação errada de nossas idades. Quando eu era mocinha, pensava em ser uma senhora de cabelos grisalhos e muitas rugas aos cinquenta anos. Será que um dia serei esta senhora grisalha, cheia de rugas e gorda? Olhando-me novamente no espelho - o grande, do corredor - vejo uma mulher cheia de sonhos e desejos, com pernas bonitas num corpo quase acima do peso, mas ainda elegante. Essa palavra, elegante, é tão antiga... Nossa!
Bem, o dia já está adiantado e eu tenho que correr para fazer as coisas. Para mim, que este seja um dia ótimo para comemorar o meu último dia.