terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Lágrimas

Olhei pela janela aberta o céu cinzento e triste. Logo logo ele começará a chorar. Chorará as lágrimas geladas que vão lavar os pecados incandescentes do chão cínico... Passos apressados se misturam na orgia dos cheiros de comida. A comida para o jantar, com seu perfume de cebolas e alhos. De repente uma lágrima me rola pelo rosto. Sinto que a tristeza do céu é contagiante. Tenho saudades.
Por trás de outras janelas vejo luzes acesas e penso em suas histórias, nos risos abafados, nos olhares cúmplices, na família reunida à mesa, contando seus casos... Vejo mãos que se tocam, energia do amor que flui sem medo. Palavras ditas e não ditas...
Então olho para a minha própria mesa, posta para o jantar, esperando a família se reunir. E cheiro o ar, em busca de alguma novidade, alguma notícia. E ela não chega.
Sinto falta dos gritinhos das crianças correndo saudáveis em busca da 'lasquinha' antes da refeição. Ainda posso ouvir seus passinhos, suas vozes infantis que me seguiam por onde quer que eu andasse. Olho para os lados e percebo que aquelas vozes cresceram, transformaram-se em vozes grossas, adultas. E ainda assim olho para seus rostos barbados e encontro lá os olhinhos das minhas crianças a me fitar embevecidos do amor incondicional retribuído.
Olho novamente para o céu. Não vai demorar muito para que ele chore. Isso é bom... Quem sabe misturamos nossas lágrimas...

5 comentários:

  1. Já acostumado às reviravoltas de seus textos, eu me surpreendi com o rumo tomado por este: a tristeza insinuada no início formatou-se, dura e pesada, ao final. Apertou-me o peito. Que a chuva lave esse peso, essa amargura, e lhe dê um dia de sol, com o desejo atendido da família reunida, o calor do afeto por perto.

    Um abraço!

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    1. Quem sabe amanhã, não é?
      Obrigada por sua visita.
      Bjuss

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  2. Lembrei agora de minha própria história amiga.E Sorrio triste também por perceber que tens razão.Talvez não seja amargura mas, sim uma nostalgia daquilo que passou e era tão bom...Não se pode esquecer, sabe por que?
    Porque não existem dois momentos iguais na vida.
    Que seja então...Chuva para a terra e chuva para a alma.
    Beijo grande amiga.:-)

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  3. O que escreveste Suzaninha, entrou em mim, e o melhor jeito que tenho, é responder-te assim:

    Lágrimas são o decanto,
    soltas do mosto da idade,
    moldadas por desencanto,
    na bigorna da saudade.

    Lágrimas são nostalgia,
    dos tempos idos dos filhos,
    numa mui doce agonia,
    ao relembrar seus cadilhos.

    Lágrimas são as suturas,
    de resquícios do passado,
    e qual remédio são curas,
    dando ao futuro um agrado.

    Suzaninha, que meus abraços também sejam teus apoios, daí, muitos deles te envio.

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  4. Muito emocionante, Su!
    Os nossos filhos não nos pertencem e voam do ninho quando chegou o tempo. É uma realidade mas sabemos que custa!

    Su, deixei lá no meu cantinho o Selo 2013 Literário para você, se desejar participar.
    http://crazy40blog.blogspot.pt/p/selos-e-mimos.html

    Abraço.

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Comente. Vou adorar ler.