sábado, 19 de janeiro de 2013

O Vento

Andava devagar aproveitando o ar ainda úmido da manhã. Aos poucos as imagens iam se fixando em frente aos meus olhos. Troncos escorrendo em troncos, pássaros plainando sobre flores, flores mudamente felizes... Aqui e ali via montinhos de folhas recolhidas do vento, olhando desamparadas para um futuro incerto longe de suas mães. Vi longas filas de formigas e pensei: "presas no chão sem nunca voar a não ser no vento ou no bico de um pássaro faminto".
Andava devagar aproveitando a nesga de sol que atravessou obstinadamente nuvens cinzas carregadas de garoa. Mas agora elas, teimosas, esconderam novamente o meu sol... Sim, o meu Sol. Era só para mim, era a minha temporária alegria, feita de energia e claridade. Mas o Céu estava muito triste. Triste e mau educado, lançando sobre nós os impropérios que só ele sabe, que nos deixa a pele arrepiada e os olhos apertados.
Andava com meus passos vagarosos de volta para casa, a cabeça em Bob Dylan  e seu "Blowin' In The Wind", antes que, de raiva, o céu despejasse todo o seu mau humor sobre minha cabeça com sua música enfeitiçada.
Olhei novamente para as nuvens. Enviei-lhes meu mais simpático sorriso e disse-lhes que agora elas já podiam despejar sua ira sobre a terra...