segunda-feira, 24 de junho de 2013

Olhos que vagam


Os olhos vagavam sem direção, sem objetivo. Apenas vagavam. Fazia frio e estava chovendo. Dos cabelos pingavam gotas geladas que entravam pela roupa molhando sem pena a pele quente e arrepiada. Mas o caminho estava apenas no começo. Sem pressa as imagens iam se sucedendo. Os passos incertos eram penosos nas ruas esburacadas. E os olhos vagavam... Sem rumo.
Vez por outra ouvia-se um latido, um miado ou um choro de criança. Estava frio. De uma ou outra janela saia o aroma inconfundível de bife fritando em óleo antigo e feijão cozido na panela de pressão. Pensava estar com fome. Dava para imaginar a mesa posta para o almoço, crianças correndo de lá prá cá - não podiam sair já que chovia - e as mães gritando para que lavassem as mãos e sentassem à mesa para a refeição.
Um gato miou, um cachorro latiu, um bebê chorou... E os olhos vagavam... Sem destino. Na cabeça mil imagens, mil lembranças... Lembranças de um tempo que ainda era, de coisas que nunca foram. As gotas de chuva continuavam a molhar impiedosamente as roupas, a pele já nem tão quente. O barulho no telhado remetia a doces tempos, tempos de contemplação, de inocência... Ouvia o barulho da chuva no telhado como se via a Lua cheia com o Santo no meio nas noites sem nuvens. Ouvia o barulho de nada como se ele fosse o único na vida. E os olhos vagavam... Ainda sem rumo.
E debaixo da chuva caminhava... Continuava frio, agora bem mais. De repente um hálito quente no pescoço, uma mão forte agarrou o braço gelado e molhado. Então os olhos já não vagavam sem rumo... Olharam fixamente para outros olhos, quentes. Ainda bem... Era apenas um sonho. Ele me cobriu com o cobertor macio e me enlaçou com carinho. E tudo estava seco, e a noite ainda caia, e a chuva era só lá fora, e tudo estava como tinha que estar.