sábado, 5 de outubro de 2013

Uivos na Noite


Era noite de lua cheia. Não podia ver seu brilho, mas sabia disso pelos uivos dos cães e dos lobos que ouvia ao longe. Um arrepio longo percorreu minhas costas, remetendo-me a lembranças adormecidas.
Aconcheguei-me ainda mais na manta quentinha que me enrolava no sofá. Estava frio. À minha frente uma fumegante xícara de café inundava o ambiente com seu cheiro forte e frutado. Olhava para ela e pensava nas longas horas de espera. Espera excruciante. Tomei um gole da bebida revigorante e olhei as horas no celular. O tempo parecia tão devagar quanto a noite opaca lá fora. Grossas gotas de chuva se sucediam em milhares de barulhos sobre o telhado, me fazendo lembrar que as janelas ainda estavam abertas, não obstante o tardio das horas. Levantei-me com preguiça e fui fechá-las. Machuquei o dedo na tarefa e o coloquei rápido na boca, como se o calor do meu corpo no carinho inesperado pudesse aplacar a dor. Xinguei entre dentes... E ninguém ouviu. E as horas não passavam.
Voltei para a minha manta e o meu café já nem tão quente e enrolei-me. Sorvi a bebida até o final, lambendo de leve a borda da xícara. A escuridão ia tomando conta de tudo, entrando devagar e inexoravelmente. E o tempo insistia em parar, não passava. O barulho da chuva era a única companhia enquanto eu esperava. E as lembranças me assomavam por completo. Lembranças coloridas, quentes... Outro arrepio me percorreu as costas. Fechei os olhos e deixei que as imagens fluíssem sem rumo, enchendo meu coração de placidez.
O tempo cínico continuava a mangar de mim. A noite continuava seu rumo e nada mais acontecia. O silêncio era aterrador e o medo já me espreitava. A chuva parou.
Peguei o celular e resoluta disquei o número. A espera era insuportável. "Vamos! Atende logo!" - gritei para o aparelho. Então, como num passe de mágica, finalmente fui atendida. Depois de um breve desabafo ele me respondeu: "Senhora, estamos trabalhando e dentro de uma hora a energia elétrica de sua região estará religada. Tenha uma boa noite".

6 comentários:

  1. Engraçado estava a contar com outro final...nunca pensei que essa solidão enrolada na mantinha quente fosse a espera energia elétrica, mas sim de um amor ausente!! Gostei imenso, bjs

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  2. Como sempre, contava com outro final. Mas você vem nos surpreender, habilmente!

    Beijo!

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  3. Olá Suzaninha! Sabes que me levaste ao engano? Ao ler o título da estorinha pensei, ora aqui temos uma outra faceta da escritora: o terror em causa! Mas não, não era, era tão somente um belíssimo relato de um desconforto provocado pela falta de energia elétrica. :)
    Adorei, daí um só abraço, não! Deixo-te carradas deles.

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  4. Lolll... Amei!! juro que em dado momento pensei que esperavas pela pizza. looolll
    Falando sério agora Suzana. Voce foi criativa no vocabulário , mixando nosso bom brasileiro com expressões aportuguesadas . Bonito mesmo. Beijo grande escritora! :-)

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    1. Ai obrigada querida amiga! Grande beijo para você também

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Comente. Vou adorar ler.