domingo, 17 de novembro de 2013

O Beijo

Então eu o beijei... Beijei tão intensamente e tão completamente que todo o meu corpo estremeceu. O seu calor imediatamente se mesclou ao meu. Meus olhos se fecharam à espera de que meu cérebro voltasse a funcionar, saísse daquele torpor paralisante e fizesse meu corpo se mexer novamente. Um cheiro esquisito penetrou minhas narinas e eu fiquei ligeiramente alerta então. 
Senti em meu rosto uma umidade gelada. Ainda assim não quis abrir os olhos. De repente mãos fortes me seguraram os braços e, quando finalmente abri os olhos, já conseguia ficar em pé.
A tarde estava quente e abafada e o céu prenunciava uma tempestade que já se aproximava. Os passos preguiçosos ainda se lembravam do almoço frugal feito sob a janela escancarada, com o vento morno que entrava bulindo com os cabelos e com as plantas, encolhidas ante o calor malvado. O passeio, resolvido na última hora, não incluía aquele beijo, roubado e inesperado. Mas aconteceu e, como resultado, todo o meu corpo agora dói... O beijo no asfalto. Um tombo memorável com direito a esfoladuras dolorosas e lambidas carinhosas da Maia, enquanto mãos fortes me erguiam do chão quente. O que me fez lembrar da célebre frase de Drummond: "No meio do caminho tinha uma pedra..."