quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Amor de Vovós

Este ano está fazendo vinte e quatro anos que perdi o meu Opa e vinte e dois anos que perdi a minha Oma. Sinto muita falta deles. Eram meus melhores amigos, meus confidentes, avós nada típicos e muito além de sua época. Um homem e uma mulher fortes e destemidos, cuja maior felicidade na vida foi criar uma família unida. Herdei uma parte do meu "dom" de escrever dele, do meu Opa. Suas histórias me inspiraram e encheram minha imaginação de sons e cheiros e de imagens... Muitas imagens. Ainda ouço o som dos discos em quarenta e cinco rotações que ele gostava de ouvir naquela enorme vitrola em forma de móvel. Fechada era como se fosse um aparador e aberta nos revelava a maravilha de uma tecnologia que sequer imaginávamos que pudesse existir. Ah! E o som daquilo... Era uma orquestra de verdade dentro daquela pequena sala da casa dos meus avós. Era um casal bonito de se ver. Quando não estavam curtindo os acordes de Mozart, Beethoven e tantos outros compositores maravilhosos, podíamos sentir o cheiro do fermento fresco crescendo na cozinha, do cardamomo, do cravo e da canela usados nos kuchen deliciosos que a Oma fazia, enquanto cantarolava musiquinhas alemãs das quais lembro a melodia, mas infelizmente não a letra. Tinha um bolo em especial, o Streuselkuchen que eu amava. Ela fazia uma farofinha de farinha com manteiga e casca de limão ralada que até hoje sinto o aroma e a textura. A comida dela era maravilhosa. Ao longo dos mutos anos que viveu no Brasil, aprendeu a misturar os temperos tão típicos daqui em pratos alemães abrasileirados que nos enchiam a boca e os olhos.
Quando ainda não podíamos andar por nossa própria conta, esperávamos ansiosamente pela visita deles à nossa casa ou a nossa na deles. Era uma festa de chá, bolo, pão de mel e os biscoitinhos alemães de cheiro e gosto tão peculiares que até hoje os sinto.
Cresci com a certeza de que podia contar com o amor e o carinho dos meus avós. Fui criada para amá-los e tê-los ao meu lado, assim como criei os meus filhos para amarem e contarem com os avós deles. Embora não morem aqui ao lado, estão sempre ali, dispostos e amorosos mesmo agora, no outono da vida. Mesmo velhos, sempre têm uma palavra de conforto e um bom pedaço de bolo na geladeira, para alegrar os dias. Meus filhos aprenderam a entender o valor da velhice, mesmo em histórias repetidas e decoradas. Entenderam que isso faz parte da vida, afinal, quando somos crianças, adoramos ouvir incansavelmente as mesmas histórias e assistir os mesmos filminhos... Faz parte. Quando crianças, temos a atenção integral de nossos pais, independente do que estejam fazendo. É justo depois de velhos, que tenham ao menos um pouco da atenção que durante a vida nos dispensaram...