sexta-feira, 7 de março de 2014

Somos o que somos

"Deixa de ser antipática menina!" Falavam-lhe quando era pequenina para, uns anos depois, dizerem-lhe "você é simpática demais!". Sim, ela achava que podia ser as duas coisas ao mesmo tempo, dependendo do momento. Há anos engolia mais sapos do que cabiam na sua barriga e enfrentava isso sempre com um sorriso na cara. Enfrentava os preconceitos inerentes às suas escolhas e brigou, xingou e lutou. Calou-se, contudo em muitas e muitas ocasiões e sorriu condescendente pensando "tudo bem, para que responder? Não vai adiantar nada..." E foi juntando os pedaços disso até que não coubessem mais no seu cérebro cheio de palavras, imagens e sensações que são mesmo uma bagunça.
Falava demais, lembrava demais e via demais... É assim que ela era. Sempre ouvia que devemos ser amados pelo que e como somos. Então chegou numa idade em que podia dizer: "sou assim e acho difícil que vá mudar. Então, se quiser me ame, senão me odeie... Escolha!"
Passou por coisas demais na sua vida para chegar até aqui sem pedir nada a ninguém. Nem mesmo a solidariedade que ela precisava. Houve uma época em que julgava - erradamente - que só era preciso frequentar o ambiente onde se encontravam as pessoas de quem ela gostava e a amizade estava ali, por si só. Houve um tempo em que ela apenas queria fazer os outros felizes... Hoje sabe que amizade é mais do que a simples companhia. Amizade é a troca dos olhares furtivos e plenamente compreendidos, é o dizer sem falar, é trocar palavras ao pé do ouvido, ainda que este ouvido seja a tela de um computador, é compartilhar a emoção de cada vitória ou cada derrota, é saber de longe o instante do outro, é compreender que nem sempre acordamos de bem com a vida, é entender a expressão "dá?" ao invés de "posso?", é aceitar o outro como ele é, com todos os seus defeitos e todas as suas qualidades, e tantas outras coisas que tornam os amigos sinceros em familiares indispensáveis. Simplesmente porque somos o que somos...
Chegou num momento em que compreender o amor era algo que estava além de suas fantasias românticas e inefáveis. Chegou um momento em que não era mais possível justificar ações passadas sob pena de acusações já sem sentido. Ela era o que era e ponto. É tão fácil julgar o que ou quem não se conhece a não ser por algumas e poucas histórias contadas por quem não sabe da missa um terço... E é mais fácil ainda usar o que ouviu como argumento para críticas ou arremesso de farpas...
Mas a vida continua e agora, o que antes era imprescindível, tornou-se diáfano. Os sonhos? Bem, ela os tinha sim e muitos... Sonhava ter uma grande e unida família, uma mesa farta, aniversários felizes e o sorriso puro de crianças ao seu redor.