segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Pérolas


Passaram-se trinta anos... Trinta anos em forma de uma vida completa, nem tão feliz, nem tão infeliz, muito melhor do que eu poderia querer e menos do que eu desejaria. Mas são trinta anos. Uma vida... Pérolas...
Primeiro a paixão, desenfreada e quente, como deve ser mesmo esta coisa que começa no corpo e vai para o coração. Então aquela sensação quase doentia, se transformou em amor. Como uma pedra que machuca a concha e que depois se transforma em pérola.
Daí vieram os filhos, lindos e perfeitos. Eles cresceram e o amor, já bem acomodado no coração, se transformou em amizade e cumplicidade. De vez em quando, nestes trinta anos, aquela paixão se reacendeu, ainda que quase uma lembrança, motivada por momentos incríveis passados à dois.
Então chegaram as rugas, as gordurinhas da meia idade e a constatação de que o corpo era mais lento do que o cérebro, mais teimoso e ágil e descrente dos anos já passados.
A vida nos empurrou cada dia rumo a esses trinta anos de vida juntos, mesmo que por vezes separados. Separados pelas atividades que sempre fizeram nossa convivência tão cheia de movimentos. Como qualquer história, permeada de altos e baixos, muitas risadas e lágrimas, dores e ardores, letras e vozes... Lembranças e esquecimentos.
Um dos filhos já é pai, o outro ainda será, coroando de mais alegrias essa história de pérolas.
E lá se vão trinta anos... Bodas de Pérolas. E eu, com tantas palavras na ponta dos dedos e da língua, nem sempre pensando com mais atenção antes de empurrá-las para fora do meu cérebro, nem sempre avaliando o resultado disso, estou agora meio que muda, pasma com as possibilidades do futuro, com as mudanças do mundo, do meu mundo, do nosso mundo... Gostaria de desejar mais trinta anos, mas no fundo, o que quero mesmo é desejar mais felicidades, mais alegrias, menos lágrimas e mais doçura e uma vida mais plena de prosperidade.
De qualquer forma, viver trinta anos juntos requer muita coragem e muita entrega. Isso sim é digno de parabéns e não apenas o fato do aniversário. Nas minhas lembranças, sempre vou reencontrar aqueles dois dias de setembro, um sábado e uma terça feira. Um sábado de sol morno, cúmplice inexato de duas assinaturas, e uma terça feira fria e chuvosa para abençoar um par de alianças.
Entrei naquela Igreja pelos braços do papai toda nervosa, sorrindo tremendo, com medo do que viria, mas dei de cara com um par de olhos sinceros e tão temerosos como os meus. E aquela ligação mágica uniu não apenas nossas mãos frias, mas nosso futuro... Prá sempre, seja de que forma for...