quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Adeus minha amiga!


As árvores estão bravas. Tão bravas que mal conseguem ficar de pé. Olham zangadas para a vida que acontece sob sua copa e balançam seus galhos raivosas, açoitando sem pena o que não gostam. Sentem o mau cheiro da urina dos cães e dos mijões de duas patas e olham inconformadas as cores e formas do lixo que se espalha. Observam confusas a destruição da vida que teimosamente se desenvolveu por eras. Olham para o Céu e suplicam por mais um pouco de vitalidade, a vitalidade que lhes roubam sem pena, sem consideração. Choram suas lágrimas sólidas, verdes e cinzas sobre um chão incompreensível e impermeável.
E se encolhem de medo quando ouvem o barulho assustador da raiva do Céu, e de pena das lágrimas de dor que lhe caem pesadas.
E seus corpos duros e retorcidos esperam por mais uma chance, mais um pouco de vida... Até mesmo da vida que abrigam, dos milhares de seres que percorrem seus caminhos inexatos de seiva e sombra, do cantar dos passarinhos e das cigarras no verão e até das abelhas e das moscas, a lamber-lhes as flores doces e frescas.
Desculpe-me amiga querida... Desculpe-me pelos maus tratos. Obrigada pela sombra fresca, pela beleza incompreendida, pela magia de tempos imemoriais. Obrigada por ter me servido tantas vezes de abrigo e de confidente, de ter colhido as minhas lágrimas de tristeza e de alegria, por ter servido de brinquedo para as minhas crianças e para as crianças de outras mães e avós e tias....
Adeus minha amiga de sempre. Nunca mais verei sua imponência, finalmente abatida pelas lâminas da indiferença. Meu coração está apertado e dolorido. Sinto em meu próprio corpo a sua dor e ainda ouço o eco do seu tombo. Agora você é uma morta sem túmulo, um monumento triste de homenagem a uma natureza que já era.
Nunca mais me esquecerei de você amiga linda de tantos tempos...
Adeus!